Jundiaqui
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Abjeto objeto

Jundiaqui
8 de novembro de 2017
Por Valquíria Malagoli

Uma página em branco reflete bem – e claramente – o que sentimos ou pensamos nesses conturbados tempos de muita fala e pouca ação.

Mais claramente impossível, essa página descreve – sem coisíssima alguma escrita – além do que sentimos ou pensamos apesar de por demais falarmos.

Sim, ela tinge de fato o modo como agimos em consonância com essa fala vazia: ela expressa o nosso não-ato.

Tal página da qual aqui já mais se diz do que a fulana contém, embora em branco – está amarela. Amarelada pelo tempo em que vimos dessa mesma forma agindo... e mais: pensando... e mais (do mesmo): sentindo.

É diversa, no entanto, e isso é óbvio, por ser vazia, a dita-cuja página do quanto falamos: diferente da morte, diferente da vida... Porque, vivamente falamos, hein...

Uau – como falamos!!!

Falar é conosco mesmo! Encheríamos, aí sim, curiosamente com esse conteúdo – vazio! – páginas mais páginas, que, pois, páginas ocas seriam.

Ocas, todavia, não poucas, porque o agir da boca pra fora é fácil. É multicor! É palatável!

Soamos, por meio do muito que falamos, convincentes. Coerentes assaz. Bonitos de fazer inveja.

E somos causa de inveja, hein! Ô, se somos! Uma palavrinha bem posta; uma frase adequadamente formatada e voilà... ficamos ótimos na fita. Na foto. Em tudo que é dado à vista (grossa) e aos ouvidos (moucos).

Causamos comichão de vontade nos outros, tamanhas são a aparência e a beleza da vontade nossa exposta nesse empolado falazar.

Ora, quem diria... tudo não passa de um círculo vicioso de belezura aparente!
Ê, gente! Nascemos pra fazer arte!

Artistas para o bem e para o mal desfilamos no boca-a-boca nosso talento para o dito pelo não dito. E para a coisa e tal. A tal coisa de ser e fazer nada. Não mover uma palha. Empurrar com a barriga. Ficar a ver navios. Dar de ombros.

E considerando que o importante (segundo dizem) é falar bonito, falo. Digo e repito. E dependendo da expectativa e da boa ou má vontade do outro, tanto ao que me lê quanto ao que me escuta, aceitável ou excepcional ou irrelevante ou intolerável será decretado o que eu disser.

Bater-se-á o martelo.

Oxalá às vezes soe, mais do que conveniente, pelo menos útil; mais do que palavrório de encher folha, estímulo para ação. De preferência, boa ação.

Fato é que política, religião, tudo... absolutamente tudo se ajeita e casos inteiros se encerram por conveniência. A mais simples e descarada conveniência.

Caso seja conveniente ao outro, por belíssimo, portanto, será tomado isto que eu digo. E isto servirá, inclusive, de cartilha. A este, àquele e a tantos quantos mais da conveniente cartilha precisarem ou ouvirem dizer que convém.

Assim como servirá este artigo cansativo (porque é uma fotografia do cansaço prévio ao qual vimos nos adaptando cotidianamente) como servem tantas indiretas, essas frases feitas à semelhança das que se joga, por exemplo, na cara desse e daquele nas redes sociais. Essas frases-objetos tão mais fáceis, porque estão à mão, do que um pensamento próprio e embasado.

Pudesse, isso sim, toda FALAção ser reflexo mais de AÇÃO e menos de fala.
Todavia, no mais das vezes, é tudo só fala mesmo. Ah, é, hein!

Malditas bem-vistas palavras-objetos, coisas ralas. Tão melhor seria calá-las, sobretudo se a gente rala... rala... rala... e o objeto de nosso desejo é, por fim, só fala.

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa

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