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A casa que habito

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24 de novembro de 2017
Por André Kondo

A casa que habito
não tem lembranças nos ladrilhos,
não tem porta presente, porão de passado,
janela para o futuro.

Na casa que habito, as notícias não passam da soleira,
com o irônico capacho de bem-vindo — todos pisam na hospitalidade, e beijam a porta na cara.

As ‘novidades’ amarelam do lado de fora
e são abandonadas em alheias varandas,
que o mundo insiste em enganar
com tragédias velhas — repetidas à exaustão.

Na casa que habito ouço o sussurro das tábuas,
o gemer dos pregos,
nada é concreto — tudo é devaneio.
Acredito em papais noéis
só não tenho chaminés.

Na sala, há uma cadeira de balanço,
que só vai e nunca volta;
no quarto, uma cama de casal solteira
com uma mancha de arrependimento no lençol;
na cozinha, o relógio está sempre faminto,
com os ponteiros devorando as madrugadas
e regurgitando escuridões nas horas de luz.

A torneira da pia do banheiro goteja solidões,
a banheira é colo, o corpo nu fetal,
o eco dos azulejos embaçados — e o choro primordial
de um parto sem útero.

A casa que habito não está em rua alguma,
encontra-se em um eu desconhecido,
na Alameda dos Ausentes,
sem número.

André Kondo é poeta e escritor
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