Jundiaqui
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Clara esfinge

Jundiaqui
24 de maio de 2018
Por Valquíria Malagoli

Reza a mitologia grega que muitos sucumbiram perante o enigma proposto pelo monstro alado com corpo de mulher e leão que afligia a cidade de Tebas. Cantando, ela inquiria os transeuntes: “Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, à tarde sobre duas e à noite sobre três, e que, contrariamente à lei geral, é mais fraco quando tem maior número de membros?”. Como nenhum dos homens era capaz de desvendá-lo, a “cruel cantora” os devorava. Isso se deu até Édipo, filho de Laio, enfrentá-la: “É o homem, pois engatinha na infância, anda ereto na idade adulta e necessita de bengala na velhice”. A Esfinge, derrotada, precipitou-se dum rochedo, vindo a perecer.

Leitores aficionados, até hoje procuram desvendar os mistérios de outra esfinge, Clarice Lispector. Debaixo dos encantos desta fera, porém, saímos senão devorados, decerto, famintos!

Dão-nos pistas os relatos de familiares e amigos íntimos, pois, estes puderam de sua passagem terrestre rastrear a estrela ascendente. Elisa, a irmã, contou que “na infância, Clarice demonstrou logo ser independente, imaginativa e cheia de ternura.(...) Sua sensibilidade extremamente apurada capta as sutis reações dos filhos, atendendo-os e amparando-os em todas as situações. Fora isso, gosta de música, não é gulosa, e é sobretudo um tanto frugal.” Daí, talvez, deste sorver tudo a miúdo, lhe viessem o talento distinto e a rara percepção com que, primeiro tudo observava – degustando, certamente – para narrá-lo com identidade e lucidez.

E mais... em suas “parábolas”, deixara-se ao alcance de todos, eternizando-se no sacrifício da entrega em doses lineares. Mas, por sua enlevada natureza, carinhosamente, nos legou segredos, amiúde, na pequenez de entrelinhas.

“Sou tão misteriosa que não me entendo. (...) nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. (...) O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. (...) No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco. (...) já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. (...) Sou o que se chama de pessoa impulsiva (...) vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente (...): às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. (...) Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. (...) também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura”.

Embora enigmática, portanto, nota-se que Clarice conheceu, como qualquer mortal, os mesmos ideal e dúvida que perseguem desde os primórdios a raça humana!: “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”.

Que a clareza de Clarice nos anime a ousar decifrar, inclusive, nossa aparentemente normalíssima e insossa vida cotidiana.

Valquíria Malagoli é poetisa e escritora
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