Jundiaqui
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Correndo com pássaros

Jundiaqui
10 de dezembro de 2019
Por Valquíria Malagoli

Nunca estive tão desconectada de tudo, e, ao mesmo tempo, com tudo afim. E a fim.

Afinidade nada tem a ver com aparência, nem realidade coaduna com ostentação.

Percebo que quanto mais envelheço, menos me preocupo em dar satisfações públicas ou em sintonizar com o que “querem que eu seja”, com o que “acham certo para uma pessoa da minha idade” etc.

– Essa saia não é pra você!

– Você não tem vergonha de sair sozinha?

– Já reparou que você não sabe dançar?

– Quando você vai alisar esse cabelo?

– Se você não precisa, por que trabalha?

– Se você trabalha, por que não recebe nada?

– Você tem cinco gatos? Nossa; você é mesmo solitária, hein!

Como eu disse, nunca estive tão desconectada de tudo, e, ao mesmo tempo, com tudo afim. E a fim.


...


Foi numa dessas divinas desconexões matinais chamadas corridas (em que só volto à lida após as panturrilhas pedirem misericórdia) que topei com os dois...


“No rastro do coleirinha/ Topei com o pintassilgo/ Os dois juntos me olhavam/ E sem querer demonstravam/ Temer minha presença/ Às vezes não por pretender/ Sem mesmo qualquer querença/ Somos assustadores!/ Naturais predadores/ Ou simplesmente à toa/ Assustamos gente boa.../ E ruim/ Ai... que sei eu de mim/ Após essa topada?/ Sei que faço coisa alguma/ E até por não fazê-la/ Sou julgada/ Que sei eu de mim?/ – Seu eu pudesse, passarinhos,/ Juntar-me-ia a vós assustada/ E cantaria... cantaria.../ Cantaria... mais nada./ Mas, Coleira.../ Mas, Pintassilgo.../ Tenho cá fundo comigo/ Que também me julgaríeis/ Por demais desafinada!”.


Por isso quem, por sua vez, topa comigo nessas minhas “correrias” deve me achar uma tonta, pois, sorrio para todos assim como sorrio por e para o nada.


Sorrio porque tudo vira poema. Na minha cabeça, tudo rima. E eu só posso achar graça. É uma graça, embora nem sempre engraçado.


Sorrio, ademais, porque sobrevivi a outro desafio físico.


Sorrio porque driblei mais uma vez as vinte e quatro horas diárias, multiplicando-as. Precisei madrugar para caber tudo dentro do espaço delas? Ué... vou chorar por isso?


Sorrio!


Então eu me esqueço dos julgamentos a meu respeito, na mesma medida em que me esqueço de julgar quem me julga. Simplesmente porque gasto muito do meu tempo rindo.


E a roda continua girando. E a vida segue enquanto seguir.


...


Isso me lembra da cena do filme em que o rapaz diz “temos tempo” e toma o tiro.


Sei lá. Acho que é a isso que eu me refiro.


Valquíria Malagoli é escritora e poetisa
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