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Crônica das formigas (e de outros bichos)

Jundiaqui
3 de maio de 2018
Por Valquíria Malagoli

Nunca compreendi o gosto de algumas pessoas por esmagar formigas.

Não tive esse perfil na infância tampouco agora.

Mesmo depois de zelar pela minha própria cozinha, aonde essas fulaninhas de pequeno, médio e grande porte, insistem em aprontar, jamais as sobrepujei.

Ao meu modo, livro-me delas sem privá-las do seu direito à liberdade.

Acredito que toda criatura mereça seu torrão de felicidade ou de açúcar sobre a terra.

Mas... enquanto lhes escrevo a respeito dessas operárias que encaro do alto de meu assustador pouco mais de metro e meio, escuto o incessante arrulhar dos pombos que se abancam aqui na claraboia, seu eventual escorregador piramidal.

Discuto amigavelmente com eles. Alguma força sobrenatural ainda me leva a crer no diálogo. Até desconfio que desdenhem às vezes quando me dão as costas. Entretanto, prefiro imaginar que esse seu gesto denote confiança em mim.

Ferreira Gullar disse, e todo mundo o imita (ao menos no falar), que é melhor ter paz do que razão...

Voltando à claraboia... aparentemente me divirto com esse cotidiano parque de diversões improvisado mais do que as aves.

Acompanho-as deslizando de cima para baixo, em sua ruidosa lida para manterem-se na ponta da pirâmide.

“Por que não desistem?” me pergunto. A pergunta, todavia, não dura.

Prefiro observá-las.

Além desse espetáculo, as referidas aves bem como outras espécies, proporcionam-me também o de assisti-las virem beber restos de chuva nas calhas da varanda durante minhas inúteis tentativas de desenhar as casas distantes, cujos cumes eu enxergo daqui do cume do meu esconderijo que, por sua vez, de pouso serve às pombas etc.

Agora de volta com o foco às pombas... quando não estão aqui e acolá, vejo-as ainda desfilando com seus passinhos cambaleados pelas grossas madeiras do alto do jardim de inverno...

Todo santo dia argumento com o grupo que, se não cuidarem de dosar sua costumeira balbúrdia, não poderei impedir meus gatos de irem bolando seus planos.

As pessoas sempre riem de mim se conto sobre meus diálogos seja com as graciosas formigas seja com as aves... Com as plantas, nem se fale! – gargalham!!!

Coitadinhas, no caso, dessas formiguinhas: pequeniníssimas, menores muito menores que a misteriosa formiga matutina do Loyola. Quando merecerão notoriedade? Se bem que isso elas sequer cogitam. Querem apenas e tão somente a tranquilidade de poderem trafegar pela pia caçando o prêmio de invisíveis restos a estes humanos olhos.

Tal e qual essas pombas, que, não sendo as de Raimundo Correia o que podem almejar? Nem ousariam enciumar-se mais do que me assistirem de acima do cimo que me encima. E, assim como eu, fazerem graça com isso.
No entanto, que alegria esta minha! Que recompensa para meu espírito, dia desses, quando alguém de espírito idêntico me disse que não gostava de formigas...

Não... não delas, especificamente; apenas de ser obrigado a matá-las, por ofício e primazia da raça, caso tope com as ditas-cujas. Por isso, “melhor não vê-las” ele disse.

Morri. Mais do que por coincidência de pensar, morri por afinidade de alma.
Mais... morri de amor. O que, infelizmente, não se passou com esta minúscula formiga a qual, sem querer, só porque me movi desatenta a sua presença, matei esmagada, enquanto apaixonadamente a defendia igual defendia outros bichos.

Valquíria Malagoli é poetisa e escritora

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