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Distinção pela essência

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28 de agosto de 2018
Por Valquíria Malagoli

A despeito do contentamento que move outros ânimos, creio na diversidade. Penso que, apenas distintos essencialmente, podemos ser autênticos.

O que seria dos modernistas, não fossem os tantos que os antecederam? Que mudança trariam, ou seja, que novidade?, que avanço, que distinção?

Que improdutivas seriam as leituras, que inférteis as produções! Que falta de perspectiva, enfim!

Sobre discordâncias versejou Ezra Pound (1885-1972) com refinada ironia: “Será que as aceitarão?/ (i.é., estas canções)./ como tímida fêmea perseguida por centauros/ (ou por centuriões),/ Elas já vão fugindo, urrando de terror./ Ficarão comovidos pelas verossimilitudes?/ Sua estupidez é virgem, é inviolável./ Eu vos imploro, meus críticos amistosos,/ Não saiais por aí procurando-me um público./ Deito-me com quem é livre em cima dos penhascos;/ os recessos ocultos/ Já têm ouvido o eco de meus calcanhares/ na frescura da luz/ e na escuridão”.

Pensamento a se considerar sobremaneira, ainda mais vindos da boca de alguém de quem se comenta estar para a Poesia, assim como Einstein para a Física.

Grave equívoco igualmente, fruto de desconhecimento e preconceito, é julgar retrógrado quem seja influenciado (embora, conforme Caetano, isto soe de certa maneira pretensioso, haja vista, no seu entendimento, para dizê-lo, o artista precise estar à altura de quem o influencia) por quem não lhe seja contemporâneo.

A literatura, e, dentro dela, com pujança, a poesia, ao longo da história – que o digam os vanguardistas – se modificou, enquanto retrato de cada época e pensamentos, então, vigentes.

Não estática, entretanto. Não apenas retrato (objeto), mas também atitude (instrumento).

Desta feita, a literatura, como manifestação artística e cultural, está a serviço do progresso, e, portanto, em movimento, contudo, não deixa de manter-se como retrato fiel também da natureza humana, pulsante e sensível.

Ora, ser sensível e pulsante pressupõe mover-se por sugestões quer presenciais, quer futurísticas, quer alusivas ao passado, desde que tirando de quando e de tudo a essência.

Inegavelmente, o homem é um animal simbólico, e, não por acaso, a escrita bem simboliza este quase intraduzível serpentear da vida. A leitura, sua extensão, seu motivo, exige, pois, mobilidade, recriação, adaptação constante. Assim, adversidades como as que se mostram nestes tempos, em que se busca a todo custo resgatar o hábito da leitura, sobretudo nos jovens leitores, acabam trazendo à tona uma enxurrada de novos valores.

Infelizmente, como nada é perfeito, junto de si, tais enchentes trazem detritos... Mas, não percamos por isto o foco, nem o sono. Trabalhemos...
Lê-se, agora, muito mais (e bem pouco) por obrigação do que por prazer.

Vê-se nisto, por conseguinte, um exercício à paciência e não reflexivo, o que, ao contrário, se revelaria deveras produtivo.

O mesmo Ezra de há pouco acertou ao dizer que seria o bastante um texto seu, publicado em alguma revista obscura, chegar aos olhos de 27 leitores e fazer, neles, ferverem os miolos. Depois, concluiu o poeta, esses 27 se encarregariam de difundir o que escrevera.

Enfim, já sabemos que a quantidade que circula do montante que se produz não é o mais importante. O que denota substância é a forma como isso se dá.
Ademais, a batalha continua.

Experiência própria: “Movimentos, um e outro sucedendo vêm.../ Ora ao sentido, ora à razão dizem amém/ os que ali se entrincheiram empunhando as penas,/ com que escrevendo vão vã nova guerra apenas./ Minha alma sobrevoa as ferozes trincheiras,/ desejando com suas asas limpar eiras.../ Mas, que pode este pássaro, se é um albatroz/ do qual mais querem rir do pouso que ouvir voz?/ Lá embaixo, ao som dos tiros, a marcha se inflama/ com mil palavras de ódio escritas por quem ama...”; “ai quem dera, amigo poeta,/ que nós, poetas anônimos,/ uníssonos, cá, nessa meta,/ fôssemos só do amor sinônimos!/ Ai, quem dera, melhor marcássemos/ não a ferro este mundo cão,/ mas pelo tanto que o amássemos.../ embora amar pareça vão”.

Valquíria Malagoli é poetisa e escritora
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