Jundiaqui
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Dois rios

Jundiaqui
24 de novembro de 2018
Por Valquíria Malagoli

Ah, desta água eu sempre beberei! Esta, a leitura, que me preenche, fazendo-me sentir que vêm desembocar em mim dois rios...

Tão literalmente prazeroso é sorver Hilda Hilst. Embriaga. Vicia... “A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos./ E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima/ Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.”.

Ai, quem dera os vícios todos, à semelhança deste, me arremetessem tão tortuosa, porém, diretamente à sobriedade verdadeira, e não ao mito que se criou em torno dela: “E bebendo, Vida, recusamos o sólido/ O nodoso, a friez-armadilha/ De algum rosto sóbrio”...

Fluentemente, Hilda discorre com placidez pela obscenidade que trafega sorumbática na mente dos pudicos: “Porque há desejo em mim, é tudo cintilância./ Antes, o cotidiano era um pensar alturas/ Buscando Aquele Outro decantado/ Surdo à minha humana ladradura./ Visgo e suor, pois nunca se faziam./ Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo/ Tomas-me o corpo. E que descanso me dás/ Depois das lidas. Sonhei penhascos/ Quando havia o jardim aqui ao lado./ Pensei subidas onde não havia rastros./ Extasiada, fodo contigo/ Ao invés de ganir diante do Nada”...

Mas, ora, que é isto que vejo surgir, correndo paralelamente a nós duas, enquanto compartilhamos?...

É Florbela Espanca, a outra afluente, em cujo seio pálido, eu, jovenzinha, arquejava. Ela vem, lançando-se, como de costume, mansa, deleitosa: “Deixa-me ser a tua amiga, Amor,/ A tua amiga só, já que não queres/ Que pelo teu amor seja a melhor/ A mais triste de todas as mulheres.”...
Assim, sem surpresa, mas com inevitável êxtase, as pressinto, uma a encharcar-se da outra. Fluida, camaleônica, embebida de Florbela, despeja-se Hilda: "Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E à noite se prepara e se adivinha/ Objeto de amor, atenta e bela.”

Sem que eu me dê conta, elas vão, após prepararem o terreno, irrigando-me, despejando-se nisto que sou, neste lodo-visco-opaco: “Tomo café amanhecido/ e junto a ele um trago/ da minha própria saliva,/ tentando digerir quem sou./ Como o pão que o diabo amassou,/ mordo a língua e engulo a raiva”.

Assim, deságuo decantada não sei onde, esfacelada, aos goles engasgando-me comigo... E reescrevo-me à sombra destas mulheres que, feito jarros, derramavam vida dos cálices de si mesmas; vou juntando cacos, à espera de tornar-me íntegra. Talvez, daí, surja “algo que não se pareça nem com poesia,/ Nem com prosa... algo que só tenha/ A deformidade semelhante ao sentimento deformado que há em mim, agora./ Alguma coisa que seja ínfima e abjeta como a face que está por trás desta que mostro,/ Tão aparentemente alegre,/ Tão discretamente sóbria”.

Retomada, banqueteio-me na leitura, a lamber rimas; farta desta minha pseudo-solidez-pragmatismo. Convido Florbela a beber boa safra de Hilda: “o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos/ Azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!/ Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados/ De infância, o plexo aberto, exposto aos lobos”. “Toma-me AGORA, ANTES/ Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes/ Da morte, amor, da minha morte, toma-me/ Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute/ Em cadência minha escura agonia”. “(...) podeis crer que há muito mais vigor/ No lirismo aparente/ No amante Fazedor da palavra/ Do que na mão que esmaga./ A IDÉIA é ambiciosa e santa./ E o amor dos poetas pelos homens/ é mais vasto/ Do que a voracidade que nos move./ E mais forte há de ser/ Quanto mais parco/ Aos vossos olhos possa parecer.”
“Por que não posso/ Pontilhar de inocência e poesia/ Ossos, sangue, carne, o agora/ E tudo isso em nós que se fará disforme?”

Insaciável, destilo a sombra densa que há nas veias destes livros... Repito a liquidez das frases de alguém: “Vou indo, caudalosa/ Recortando de mim/ Inúmeras palavras”. “Contente. Contente do instante/ Da ressurreição, das insônias heroicas”, até enfim ser como ela, vocábulos correntes, dados à sede alheia...

Valquíria Malagoli é escritora
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