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A dor do outro

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9 de dezembro de 2017
Por Valquíria Malagoli

“A Dor — tem Algo de Vazio —/ Não sabe mais a Era/ Em que veio — ou se havia/ Um tempo em que não era —/ Seu futuro é só Ela —/ Seu Infinito faz supor/ O seu Passado — que desvela/ Novos Passos — de Dor.”

Querer dimensionar a dor do outro partindo de critério comparativo é uma tolice. Sensações são muito particulares.

A maneira de assimilar, digerir, sobreviver à dor, seja ela de que natureza for, sobretudo quando é motivo de trauma, é algo assaz pessoal, sim.

É, portanto, intransferível.

Contudo, curiosamente, comparar a dor destes às daqueles é um erro clássico.

Conscientemente ou não, tanta vez isso nos serve para tirar o foco da nossa própria dor ou até para, por esse lapso de tempo – o tempo do julgamento – esquecê-la.

Bom seria percebermos nossa incapacidade para avaliar de todo o sofrimento alheio, nas inúmeras vezes em que nos flagrássemos prestes a cair nas armadilhas da nossa suposta perspicácia.

Olhando de antemão para nosso íntimo de modo mais carinhoso, sendo conosco mesmos mais humanos, quem sabe... quem sabe mirássemos de forma menos rasa a infelicidade que excede nossa matéria dolorida e extrapola nossa alma latente. Quem sabe...

... quem sabe, desse jeito, menos resolutos como quando apontamos o dedo para o que está fora de nós, quem sabe... talvez fôssemos menos cínicos, e inclusive mais úteis para com nossa intimidade, bem como para com a dos outros...

... quem sabe... sacando dessa percepção seríamos de fato perceptivos.
Quem sabe nos acostumaríamos menos à recorrência dessa cruel ignorância.

Enquanto isso, ridiculamente imaginamos que – de fora –, à distância, ou minimamente próximos, temos condição de avaliar e dar nome aos bois quando, no caso, a angústia em questão não corta a nossa carne diretamente, não rasga de cabo a rabo a nossa alma.

É indiscutível que épocas, contextos e circunstâncias trazem à tona situações de euforia ou de aflição similares. Encaixar, contudo, de pronto, um comportamento nascido de uma dor íntima a este ou àquele padrão de comportamento típico, e a partir de similaridades tais nominá-lo, julgá-lo e enquadrá-lo e pronto... aí, amigos, é muita falta de sensibilidade!

Muita falta de senso para posarmos de sensíveis.

Emily Dickinson, autora dos versos do primeiro parágrafo, nascida em Amherst, Massachusetts, em 10 de dezembro de 1830, viveu grande parte da vida em um quase isolamento físico, tendo enfrentado diversas crises depressivas. Morreu de nefrite, em 1886, praticamente desconhecida do público. Após seu falecimento, foram encontrados pela família mais de 1750 poemas seus, escritos a partir de 1850.

Quantos e quantos anos isso dista dos nossos dias?

Existe dor desde sempre. E ainda dói.

Mas, vamos combinar? Eu respeito a sua. Você idem.

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa
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