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Falar x Fazer

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11 de abril de 2018
Por Valquíria Malagoli

Tanta gente critica quem corretamente articula seu discurso, desde numa simples conversa do dia a dia até por força do exercício da profissão, que chego a sentir pena, por exemplo, dos advogados...

Eu, que sequer tenho o diploma, sofro esta pena (– algum advogado de plantão, aí, para me socorrer???). Cumpro-a, por motivo da sentença a mim imposta, no caso, de (como se isso fosse ruim) lograr formular sentenças específicas: frases.

Que confusão! E que julgamento injusto!

Por ora, em defesa própria, tenho a dizer que não fui eu quem causou a dita-cuja bagunça. Quem a causa é todo aquele que entrando comigo em debate (não a respeito do linguajar) argumenta: “ah, espera! você fala/escreve muito bem mesmo, hein...”.

Surpreendente é que as pessoas sempre o digam em tom de acusação. Tomam o suposto razoável texto como uma arma de ludíbrio. Tratam-no não como um objeto de expressão, e, sim, como uma armadilha por meio da qual obterei vantagem.

Para início de conversa, quem me acusa de “falar difícil” nem deveria gastar-se em acusações no tocante às minhas intenções, já que, considerando sequer ter compreendido o que eu disse, não está apto a avaliá-las boas ou más.

Agora, engraçado (para não dizer estúpido, e, nisso, ser acusada de otras cositas más), é ouvir que “é melhor viver corretamente do que falar corretamente”.

Amigos, cá entre nós, primeiro esclareça-se o óbvio: uma e outra coisa são independentes. Após, vamos definir o que se entende por “corretamente”...

Vamos pelo caminho do debate raso acerca das maneiras (cercas) em conformidade com padrões preconceituados? Ou vamos à luz do “essa é minha vida... essa é sua vida?” ou... do “quem o/a constituiu juiz dos meus passos ou eu dos seus?”. Ou ainda do “que bem você faz ao universo, à humanidade ou à língua (idioma) cada vez que bota essa sua língua para funcionar?”.

Ninguém é obrigado a eximiamente trafegar por todos os campos do conhecimento. Por isso é que não morro de inveja nem saio agredindo quem cozinha melhor do que eu, quem cose melhor do que eu...

Outrossim, não é crime ter algum talento. Ao contrário, se o de um é pintar e bordar enquanto o do outro é falar e escrever, use-o cada qual para benefício de todos. Ou, no mínimo, tentemos todos com nossos dons não prejudicar ninguém. Tentemos também não nos acomodar de maneira a ter sempre à mão a conveniente desculpa de saber menos, que, inclusive, forja inocência e, essa sim, acoberta simulações.

Essas simples regrinhas são tão eficazes quanto palavras de lei.

À parte e acima de tudo isso, tomara um dia tanto a fala quanto a escrita possam, sem exceção, exceder-se na cessão da palavra deste àquele somente para bom uso. Ambas com uma dose de razão e uma pitada de sensibilidade. Para que a palavra seja mais do que palatável – seja de fato, em suma, no sumo, saborosa de ler e ouvir!

E possamos todos, em bom ou não tão bom português, nos articular de modo a inspirar bonança ao invés de comparações hipócritas como esta entre o falar e o fazer.

Viver excede a fala. Portanto, viva mais e fale menos. Pelo menos, menos bobagens.

A palavra quer ser mais do que sua raiz. Quer ser a planta que chega à luz mais do que em sua plena forma. Quer ultrapassar o quadrado do canteiro da mais perfeita norma. A palavra pretende-se essência. Mas ela é instrumento e carece de quem a plante e use.

Portanto, cuidado. Cuidado com o que semeia. E, sobretudo, com onde e em quem pisa.

Valquíria Malagoli é poetisa e escritora
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