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Goiabeiras

Jundiaqui
1 de março de 2018
Por Valquíria Malagoli

Passando, na rua, pelas goiabeiras que exibem seus pequenos frutos ainda muito verdes escuros, é impossível não me lembrar da infância...

Eu passava meus dias trepada na goiabeira lá de casa. Na verdade, no terreno do vizinho.

Ali, com sua autorização, plantávamos de tudo: de cebolinha e tomate até batata-doce e milho, inclusive, para pipoca.

Tínhamos, então, a mesa farta no almoço e jantar do dia a dia, e, nas festas juninas, garantidas as delícias para comer ao som do crepitar da fogueira. Para nós e para a molecada vizinha que se juntava. Senão... não seria festa.

Em consequência dessa fartura, claro, havia contrapartidas... por exemplo, nunca fui muito com a cara do marinheiro Popeye. Sim... Culpa da abundância de espinafre que me enjoou.

Além disso, os da minha geração sabem o que é tomar aquela vitamina que as mães da gente faziam com ovos de codorna, leite condensado e biotônico.

Mas, duvido, duvideodó que alguém o saiba tanto quanto eu e meus irmãos, pois, ali criávamos também galinhas e, sim, as ditas-cujas codorninhas. Como botam!!!

Minhas galinhas são um capítulo à parte. Elas tinham, cada uma, seu nome. Nomes de gente. Pelo respeito que eu tinha por elas – minhas primeiras confidentes de cujas bocas, digo, bicos jamais saiu uma palavra sequer do que eu lhes segredei –, eu achava que elas deveriam receber nomes iguais aos das pessoas. Afinal, tratavam-se de pessoas da minha mais alta confiança.

Quando recordo da infância, por essas e por outras, sinto um misto de saborosa nostalgia... e certa vergonha.

Em suma, eu passava as tardes inteiras, após o período da manhã na escola, contando os bichos das goiabas, e às goiabas contando os grilos da minha cabeça.

Ai, ai... que saudade! Ai, ai... se todos os grilos hoje tivessem a dimensão e a simplicidade daqueles de época tão tenra!

Agora, sempre que, correndo, passo por essas goiabeiras nas calçadas, que não têm dono e que não são aquelas goiabeiras viçosas do meu antigo quintal, que não era meu, portanto nem as árvores nem seus frutos me pertenciam... percebo que em minha vida toda, nunca tive algo realmente meu. Isso dá uma sensação boa. Meio engraçada. Meio estranha. Porém, boa.
Sensação de não-posse.

Eu digo “meus filhos”, “meus gatos”, “minha casa” etc. Acontece que meus filhos são donos de si; meus gatos são livres; minha casa é onde eu moro...
O mesmo se aplica ao “meu” celular, caso eu deixe, não é meu. Caso eu deixe, ao contrário, ele me escraviza. Eu é que serei “sua”.

Esse celular, como o seu. Exato. Essas máquinas de prender gente.
Percebo isso olhando agora essas goiabinhas miudíssimas...

Rememoro como eu fugia da realidade e das cruezas do mundo, me alienando pendurada nos galhos, observando hábitos de besouros, entretanto, fingindo não haver, adiante das folhas e do chão de terra, um mundão veio vasto e sem porteira!!!

Criticamos tanto as crianças e, principalmente, os jovens de hoje em dia por sua exclusão da realidade. Como se os celulares de agora não fossem apenas as goiabeiras de outrora.

É... é mesmo da natureza humana encontrar, em todas as épocas, frutas de época ou aparelhos rapidamente obsoletos, de maneira a fugir de tudo e de todos.

Valquíria Malagoli é escritora
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