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Há controvérsias

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18 de dezembro de 2018
Por Valquíria Malagoli

Um batizado, cujo padrinho era Tomás Antonio Gonzaga, se deu, em 1788, na Vila de São José, Minas Gerais. Os comentários feitos durante a euforia da festa foram dar nos ouvidos das autoridades. Entre eles, “Bárbara Eliodora será rainha”. Seria o início de uma conspiração? E, afinal, quem era essa mulher, de quem se tem registros controversos de ter sido poetisa?

Trata-se, ao lado de Marília de Dirceu (musa de Gonzaga), de uma das figuras femininas às quais se atribui o título de heroínas da Inconfidência Mineira.

Não há, contudo, dados comprobatórios de atuação efetiva de qualquer delas na conjuração, a não ser, no caso de Bárbara, suposições de que influenciara o marido, impedindo-o de trair os colegas, quando lhe assomou o desespero frente à iminência do cárcere.

Ora... e esse homem, quem era?

Alvarenga Peixoto, nascido no Rio de Janeiro. Das datas de seu nascimento e morte só o que se sabe, ao certo, é que geram controvérsias.

Como Gonzaga (parente conforme alguns historiadores, amigo segundo outros), também poeta (nisto há concordância), formou-se em Coimbra. Assumiu o posto de juiz-de-fora de Cintra, Portugal, e, adiante, de ouvidor de Rio das Mortes, atual Tiradentes.

De volta à pátria, destacou-se por seus versos, motivo de seu prestígio entre os colegas da jovem Arcádia portuguesa, bem como por seu caráter e trato igualitário a pessoas de qualquer classe social.

Em 1779 nasceu a primeira filha de Inácio e Bárbara, Maria Efigênia, ou “princesa do Brasil”, como o pai preferia chamá-la.

A despeito do escândalo, à época, viviam maritalmente desde 1778. Isto, é claro, não é consenso, pois certos pesquisadores supõem que, quando do matrimônio, a criança contava já três anos.

Aquela, inclusive, ao completar sete anos, recebeu do pai: “Amada filha, é já chegado o dia,/Em que a luz da razão, qual tocha acesa,/Vem conduzir a simples natureza:/– É hoje que teu mundo principia./A mão que te gerou, teus passos guia;/Despreza ofertas de uma vã beleza,/E sacrifica as honras e a riqueza/Às santas leis do Filho de Maria./Estampa na tu'alma a Caridade,/Que amar a Deus, amar aos semelhantes,/São eternos preceitos de verdade;/Tudo o mais são idéias delirantes;/Procura ser feliz na Eternidade,/Que o mundo são brevíssimos instantes.”

Tudo sombras, porque há quem diga serem tais linhas de Dona Bárbara.

Suposição naturalmente contestada pelos que julgam que aquela senhora não tivesse cultura literária. E, dito pelo não dito, o presente foi dado!

Embora sua atuação tenha sido intensa, para a posteridade fica mais a marca, dentro do movimento da Inconfidência, da intelectualidade e fortuna de Peixoto, do que propriamente sua ação revolucionária, tida como cheia de indecisões – é óbvio... não existe unanimidade quanto a isto.

Virtude e coragem podem, às vezes, confundir ou mesmo cegar. Quem sabe sua alma poética – não a única – tenha-se enlevado a tal altura que seu corpo e sua razão não a puderam acompanhar no grande sonho seu e de seus colegas que era estabelecer um novo estado nas Minas Gerais. Quem sabe?...

Talvez por isso tenham se enganado nos planejamentos, perdendo a noção de suas reais condições e recursos materiais. Quem sabe?...

Fazendo uso de seus talentos poéticos, Alvarenga Peixoto, teria buscado agradar autoridades e fugir da condenação. Aliás, acabar por semelhante motivo comprometendo ou entregando companheiros, não foi, até onde se tem notícias, causa de mácula na biografia apenas dele, neste capítulo da História, nem de outros.

Foi-lhe imposta a pena de morte, negociada e substituída, enfim, pelo exílio. Negociação que de nada adiantou, pois, poucos dias depois de chegar à África, em 1792, faleceu, vítima de febre maligna. Antes, porém, o autor de sonetos cuja musicalidade e devoção à natureza o elevaram no gosto arcádico (não obstante, na contramão, ser considerado o precursor do

Romantismo, por não ter cultuado demasiadamente a mesma beleza que era foco dos árcades como ele), escreveu à esposa: “Bárbara bela, Do Norte estrela,/Que o meu destino sabes guiar,/De ti ausente triste somente/As horas passo a suspirar”...

Valquíria Malagoli é poetisa e escritora
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