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Início de conversa

Jundiaqui
12 de abril de 2019
Por Valquíria Malagoli

Subiam meus olhos os degraus da estante, quando tropeçaram não numa “pedra no meio do caminho” que lá pudesse ter deixado Drummond, e sim numa apostila do meu tempo de escola...

Abrindo-a ao acaso, li: “Toda canção de liberdade vem do cárcere.". É com esta citação de Gorch Fock, pseudônimo de Johann Kinau (1880-1916), que Mário de Andrade encerra seu Prefácio Interessantíssimo. Ora, mas, um prefácio – do latim praefatio, aquilo que é dito (fatio) antes (prae) – é um início de conversa. Tiremos o carro da frente dos bois...

Estamos nos anos vinte, em pleno Modernismo. No texto supracitado, que consta da Paulicéia Desvairada, o autor antecipa: “Para quem me aceita são inúteis amos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou (...) Outros infiram o que quiserem. Pouco me importa. Nossos sentidos são frágeis. A percepção das coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias, ignorâncias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar, etc... Só idealmente podemos conhecer os objetos como os atos na sua inteireza bela ou feia.”.

Num salto temporal, regressei ao passado, e, nele, encontrei Gonçalves de Magalhães, em seu prefácio a Suspiros Poéticos e Saudades: “Pede o uso que se dê um prólogo ao livro, como um pórtico ao edifício; e como este deve indicar por sua construção a que Divindade se consagra o templo, assim deve aquele designar o caráter da obra. Santo uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este livro se elevem em alguns espíritos apoucados (...) São poesias de um peregrino, variadas como as cenas da Natureza, diversas como as fases da vida, mas que se harmonizam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anéis de uma cadeia; poesias d'alma e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.”.

Não obstante tal admoestação, nem esta obra, nem a de há pouco, nem qualquer outra jamais escapa de julgamentos calcados mais no que diz respeito ao caráter técnico apenas ou, por que não dizer, no gosto pessoal, do que propriamente nas razões da alma e do coração.

Isto posto, há que se ter em mente que as considerações prévias deste poeta, bem como os demais esclarecimentos que compõem o preâmbulo de Suspiros Poéticos e Saudades (considerado o marco do Romantismo no Brasil), refletem o andar da carruagem àquela época. Um tempo em que, embora já se respirasse uma nova tendência estilística, vestígios do então decadente Arcadismo ainda sobressaíam, inclusive, no próprio livro em questão.

Não foi, pois, à toa que, antes de despedir-se de sua criação e do leitor a quem a entregava com um adeus, Magalhães considerou: “Eis as necessárias explicações para aqueles que leem de boa fé e se aprazem de colher uma pérola no meio das ondas; para aqueles, porém que com olhos de prisma tudo decompõem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o néctar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?... Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escárnio (...)Tu vais, ó livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Pátria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os nossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, exceto o egoísmo; tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos de inverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.”.

Engraçado... o tempo passa, e nada tira do ser humano o fôlego com que ora se abastece, ora se engasga em busca de liberdade. E continuaremos engasgando sempre, enquanto imaginarmos que liberdade pressupõe subjugar o que é diverso, seja novo ou velho. Porque liberdade não exige que se jogue fora toda uma história, todo um passado que, certo ou errado, bom ou ruim, concorreu para alguma evolução.

Oxalá possamos fazer nossa esta frase de Mário de Andrade: “Não ataquei nem aplaudi: me pensei”.

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa
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