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Lista de medos (ouvindo Belchior)

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27 de novembro de 2017
Por Valquíria Malagoli

“Eu tenho medo e medo está por fora/ O medo anda por dentro do teu coração/ Eu tenho medo de que chegue a hora/ Em que eu precise entrar no avião/ Eu tenho medo de abrir a porta/ Que dá pro sertão da minha solidão”...

Um: o perigo que mora dentro de casa, haja vista casas alojarem pessoas.

Dois: pessoas.

Esses primeiros, à semelhança dos medos a seguir, misturam-se. São uma lista de ingredientes cozinhando nas panelas de nossas cozinhas íntimas.

Três: o homem que diz (e que para dizê-lo enche a boca) que bater em mulher é crime... que esse criminoso deveria ser preso... ser morto. Sim, esse tal “homem” – esse que diz que diz sobre o outro cara – é capaz, e, havendo oportunidade, fará! o mesmo.

Quatro: fiéis. Digo, os que se dizem. Aqueles que, no exercício da sua (pretensa) fé, sabem destruir a nossa, por meio da superficialidade de suas convicções, da suscetibilidade de sua conduta, da muita areia que a sua boca cospe a fim de pôr abaixo a casa do vizinho, mas que não sustenta a edificação própria tampouco a própria palavra.

A essa altura, faz-se bom um esclarecimento: os números e os respectivos medos que estes elencam, no presente texto, não aparecem em ordem de importância ou ocorrência na vida.

Há vidas nas quais, aliás, alguns sequer aparecem.

Outros existem que, em determinadas vidas, aparecem, só que sob diferentes formas; que até crescem... Alguns há que desaparecem.

Esses medos – os que desaparecem à força – porque nos mandam calá-los, são talvez os piores. Neles nem mais tarde podemos ousar falar. Acusar-nos-ão de nos vitimizarmos agora. Aí seremos vítimas tardias de termos sido vítimas precoces. Deixa pra lá.

Que mais? Ah, sim: tenho aversão (medo) de que se imponham ordem demais. Padrões demais. Améns.

Por isso, chega de botar em ordem desordenados medos.

Enquanto os enumero, perco decerto o tempo na esteira do qual a vida segue ensinando cada um conforme as circunstâncias, de seu jeito muito particular.

Importa que não obstante minha experiência permita a você (e vice-versa) dela tirar algum proveito, a experiência pessoal nossa foi, é e sempre será indubitavelmente única.

A minha dor e a minha alegria são as que de fato reluzem na constelação dos meus pensamentos ou doem na minha carne. Ou o contrário. Blá blá blá...

Entretanto não vamos, em virtude de estarmos tão cônscios disso, tratar com insensibilidade a verdade alheia.

Para corretamente dizer o que tento dizer, citarei o original conhecidíssimo: hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.

No mais... citações à parte, em qualquer idioma ou época, impedirão o medo de ladear-nos, por mais que alardearmos a respeito.

Então, coragem! Chega de nos envergonharmos diante das próprias justificativas que em número, letra e música são uma só: “medo, medo, medo, medo, medo, medo”.

Coragem! Afinal, de nada adianta bater o pé quando “Eu tenho medo e já aconteceu/ Eu tenho medo e inda está por vir/ Morre o meu medo e isto não é segredo/ Eu mando buscar outro lá no Piauí”...

Valquíria Malagoli é poetisa e escritora
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