Jundiaqui
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Manhã frugal

Jundiaqui
13 de setembro de 2018
Por Valquíria Malagoli

Conta-se que uma maçã deu início à saga humana na terra. Ora, curiosamente, esta nossa aventura originou-se também do fruto duma macieira! E como de macieiras não nascem figos...

Tendo o meu desjejum se dado muito cedo, despontava o astro-rei ainda e a fome já me incomodava... Acariciei a dita cuja que, corada, repousava na fruteira, a fim de acordá-la mansamente. Após dar-lhe um refrescante banho de torneira, dirigi-me junto dela ao sofá, olhando-a e degustando-a antes mesmo de devorá-la.

Interrompi por um minuto o percurso para encostar a janela de um dos quartos, que o vento da manhã batia. Ao fazê-lo, num relance, observei, no suporte do varal, fora, a rolinha que, cotidianamente, vem descansar ali.

Com tanta graça ela limpava as asas que me foi impossível não somar ao minuto que me conduzira até aquele cômodo, mais alguns...

Que bonitos são os edifícios alvos, vistos assim, adiante do dorso da pequenina ave! Que elefantes brancos se afiguram!

Lá longe, lançando-se dos vidros dos carros, reflexos do sol dialogavam comigo, e, de repente, senti-me uma índia de tribo distante a receber sinais de fumaça do povo irmão que mora aos pés da Serra do Japi.

Mas, a lida diária, na voz da máquina de lavar roupas, ruidosamente, me chamava de volta à carga. Agora, eu teria de levar a maçã à boca e estender os lençóis ao mesmo tempo, driblando os prendedores à semelhança do que os craques fazem defronte aos adversários com a bola nos pés.

Sem problemas, pois, se a prática leva à perfeição, eu exercitava-me dia a dia nessa modalidade.

Contudo, a ideia de esticar por breves deleitosos momentos as pernas naquele sofá, voltou à minha mente, rendeu-me, e conduziu meus passos em direção à sala.

Liguei a televisão menos para ver a programação do que para, por instantes, ouvir uma voz que não fosse a minha própria cantarolando, da pia ao tanque, do tanque à pia...

Entretanto, mal sua imagem surgira na tela, eu (admiradora de sua obra) o reconheci – Ferreira Gullar. Notei os cabelos grisalhos caindo, teimosos, sobre os olhos, cujos óculos de grande armação protegem; sobretudo, porém, atentei às palavras sempre certeiras, no caso, estas, a seguir: “poesia não cura dor de dente, queda de cabelo, nada disso, mas torna a vida mais gostosa de viver (...). E cada poeta aumenta o mundo! Se você se torna um leitor de poesia, você descobre coisas que jamais descobriria...”.

Findo o documentário, voltei ao dormitório para, de novo, reler o mundo que mora além do olhar do pássaro. Ele havia partido. Amanhã retornaria; sua rotina o denunciava. Que bom para ele eu não ser um gavião faminto!
O restante da paisagem ainda estava lá, todavia, o cenário que me arrebatara há pouco, estava incompleto.

Por força do hábito, quando dei por conta, estava na cozinha. Terminei minha refeição frugal. Joguei fora os caroços. Lembrei-me das roupas. Fui à lavanderia. Estendi-as uma a uma. Fiz, aliás, tudo a seu tempo, enquanto a cabeça (esta incorrigível velocista) digeria outra frase do poeta maranhense.

Relembro dela a essência, o sumo, embora a ordem exata da sentença fuja, agora, de meu domínio: o poeta inventa, reescreve a vida, porque a vida é pouco, ela não é o bastante.

A esta altura, tive fome novamente... de poesia. Fui à estante; busquei Gullar. Trouxe da prateleira “bananas podres”, sirvam-se à vontade: “E detrás da cidade/(das pessoas na sala/ou costurando)/às costas das pessoas/à frente delas/à direita ou/(detrás das palmas dos coqueiros/alegres/e do vento)/feito um cinturão azul/e ardente/o mar/batendo o seu tambor/que/da quitanda/não se escuta/Que tem a ver o mar/com estas bananas/já manchadas de morte?/que ao nosso/lado viajam/para o caos/e azedando/e ardendo em água e ácidos/a caminho da noite/vertiginosamente devagar?”

E que tem a ver conosco a poesia, senão que é um caminho, tão silente, a nosso lado, e sequer a ouvimos sussurrar, enquanto os carros buzinam, ou os eletrodomésticos berram?

Que tinha a ver comigo aquela maçã, a não ser que, dentro de si, além da casca, guardava para mim o segredo do alimento, a vida!

Valquíria Malagoli é poetisa

 
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