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Manoel

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4 de março de 2018
Pobre, desiludido, obcecado, o cara seguiu seus impulsos primários e não ia parar mais, conta Cláudia Bergamasco



Cláudia Bergamasco

- Manoel?

- Oi!

- Onde você tava? O almoço tá frio. Perde tempo com briga de criança, por isso que não vende. Tem conta prá pagar, esqueceu?

- Cala boca, mulher.

- Não calo coisa nenhuma! Eu me mato de cozinhar, lavar roupa, limpar a casa e você fica olhando briga de criança e cantando as mulheres que entram na venda. A gente tem prestação da casa prá pagar. Mês passado tive que inteirar com meu irmão, esqueceu?

- Eu já falei que pago teu irmão mês que vem, porra!

- Não fala palavrão na minha casa! Você tá muito folgado. Antes saía cedo, agora só abre a venda às dez. Fica o dia inteiro na porta olhando a escola. Virou professor, por acaso?

- Mulher, você tá falando demais.

- Vai me bater de novo, seu desgraçado? Não basta não trepar, ainda agora deu de bater? Na minha família nenhuma mulher apanhou. Se eu contar para meu irmão ele te mata.

- Chama o boiola do teu irmão, chama. Aproveita e chama o corno do teu pai e a porcaria da tua mãe. Sua vagabunda! Cala a boca! Merda!

Batida de porta

- Deixa que eu vou atender. Vai almoçar logo que eu tenho que lavar a louça e ir no culto.

- Não quero ninguém enchendo meu saco aqui.

- Cala a boca e vai comer.

Foi. Voltou

Choro

- Que desgraça, meu Deus, que desgraça!

- O que foi?

- Encontraram Michele atrás da escola.

- Que Michele?

- A filha da vizinha. Fizeram maldade com ela, depois mataram. Senhor, Senhor, guarda Teus Filhos, Senhor!

- Quem tava aí?

- A dona Fátima e mais dois guardas.

- O que eles perguntaram?

- Se eu tinha visto alguma coisa. Eu falei que não, e que você estava na venda.

- E a mãe da Michele?

- Tá no trabalho.

- Merda de bairro. Vamos embora, ficar com tua irmã em Minas.

- De jeito nenhum que eu vou para aquele cafundó. Você é vagabundo, quer viver do INSS, mas eu não vou me enfiar naquele fim de mundo que não tem loja.

- Aqui tá perigoso, mulher! E se te pegam?

- Pegam nada, eu anda com o Senhor Jesus. A Michele estava usando batom e roupa justa, daí atraiu algum endemoniado. Eu sou filha de Deus, obreira na Igreja, Jesus me protege.

Prendeu os cabelos, calçou os sapatos e saiu para o culto. Enfiada na igreja, como sempre. Fedor azedo, cara amarrada e aquele monte de banha. Manoel lembrou do corpo magro da menina. Deu um aperto no peito, vontade de fazer de novo. E de novo. Mas tinha de voltar e atravessar a linha do trem. Perto da escola erra arriscado.

Saiu para a venda. Ainda tem o turno da tarde na escola, e a turma da noite chegando. Botasse menos presunto no sanduíche, precisava pagar o cunhado.

O sol quente na rua. Passou devagar, só conferindo os olhares. Tudo calmo.

A viatura estacionada na porta do boteco, a turma vazou. Devia vender cachaça também, mas a mulher ia encher o ouvido dele. O negócio era mudar para Minas. Arrumar uma menina nova e ir aproveitando a aposentadoria. Três salários mínimos lá eram um dinheirão. Cincoenta e oito anos, ainda dava para o gasto.

Pensou, de novo, no ventre liso e nos seios pequenos de Michele.

Claudia Bergamasco é escritora

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