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A matemática do ser

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11 de fevereiro de 2019
Por Valquíria Malagoli

“Parece, Senhor, que me desdobrei,/que me multipliquei,/que a chuva dos céus cai dentro de minhas mãos,/que os ruídos do mundo gemem nos meus ouvidos”. Eis o início da poesia "A multiplicação da criatura", de Jorge de Lima (1893-1953).

O alagoano mostrou, em sua obra, uma grande evolução poética. Por exemplo, a linguagem simbólica por ele utilizada no poema "Invenção de Orfeu" – profunda reflexão acerca da vida e do universo – é material, até hoje, de questionamentos quanto à totalidade de sua interpretação.

Na primeira poesia citada, ele, que partiu de raízes parnasianas e passou com louvores pelo movimento modernista, discorre sobre seus pensamentos de inspiração nitidamente religiosa: “Parece, Senhor, que as noites escurecem dentro de meu ser múltiplo/que eu falo sem querer por todos os meus irmãos”; “que tu me alongaste os braços à procura de abóbadas raras e iluminadas”.

Nota-se, linha a linha, além do regozijo do autor por ser filho de Deus – o que o torna um ser múltiplo –, a permanente consciência da sua condição de criatura, explicitada em momentos que nos permitem, pela clareza tocante com que descreve as cenas, visualizar sua figura humana. Assim, possibilita que enxerguemos também, a nossa situação cotidiana de seres divididos entre a certeza (ou a dúvida) da gloriosa herança celeste e as terrenas obrigações.

“Parece que em minha sombra/o sol desponta e se deita,/e minha sombra e meu ser/valem um minuto em Ti”. Não consigo imaginar que ele, como eu ou você, não vivesse tanto intrigado quanto instigado pelos mistérios que existem e persistem entre o céu e a terra. Por mais que nos desdobremos, qual pretenso crente não pensa valer, talvez, quando muito, apenas um milésimo de segundo diante Dele? Jorge devia estar mesmo muito iluminado e envolvido por sua fé para confortar-lhe a ideia de valer um minuto!

Penso que independe da opção religiosa de cada pessoa Deus estar em toda parte. Embora assuma as mais variadas formas e adote (ou melhor, lhe dêem) diversos nomes, Ele é onipresente. Para quem escreve, portanto, aparece aqui e acolá nas frases, embora, às vezes, sujeito oculto.

Mas, voltando das divagações... Jorge de Lima tinha um bom amigo chamado Murilo Mendes (1901-1975), e, ambos, além de ótimos poetas, eram movidos por temas nos quais esmiuçavam a si mesmos, incessantemente perseguindo explicações ou, no mínimo, lenitivos (curiosidade: Jorge era médico) para doenças que, entre outras, já em seu tempo contagiavam o mundo: o individualismo e a descrença.

Crítico da sociedade técnica e mecanizada na qual vivia, o professor universitário Murilo (“Sou o espírito que assiste à Criação/e que bole em todas as almas que encontra./Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo./Nada me fixa nos caminhos do mundo”), um constante estudioso e permanente renovador da expressão poética, utilizou-se da palavra, inclusive, como ferramenta para ironizar aquele momento da história. Fiel, sobretudo a si mesmo, não se dobrou a padrões literários estabelecidos; o leitor, ao ler seus escritos, torna-se um agente ativo no processo de decifração dos textos.

Juntos, os companheiros lançaram o livro intitulado "Tempo e Eternidade", onde se observa, conforme comentário de José Guilherme Merquior, “uma religiosidade verticalmente empenhada na crítica da desumanização da vida no mundo contemporâneo”.

Por serem inseparáveis, conta-se que, ao vê-los chegando, um amigo comum costumava dizer: “Lá vem Tempo e Eternidade!”. “Tempo” era, no caso, Jorge que, mantinha-se mais preso a este tema, enquanto que o mineiro Murilo, por transmitir maior preocupação com as questões eternas era, pois, “Eternidade”.

Muito se dividiram em suas tantas atividades, subtraindo do caminho os empecilhos para, somando esforços e talento, trabalharem a evolução das formas de expressão. Melhor para nós que podemos conferir o resultado dessa feliz operação, dentro e para fora da qual, Murilo e Jorge, no espaço de tempo de que dispunham, eternizaram as possibilidades de seus versos pensantes, tornando-as múltiplas.

Valquíria Malagoli é escritora
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