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O entregador

Jundiaqui
6 de agosto de 2018
Por Valquíria Malagoli

Toca o interfone.

Um enorme arranjo de rosas amarelas e antúrios encobre a vistosa figura, cuja vista só depois tive.

Entro.

Agora o amarelo me precede, enchendo-me os braços e mais o espaço à frente.

Precede, aliás, absolutamente tudo, inclusive, pensamentos meus que, por sua vez, o precederam.

Há dias adoecida, eu já não encontrava graça em coisa alguma.

Apenas um cansaço me abatia o corpo, alastrando-se espírito afora...

Mas, de repente – aconteceram flores!

E, como se não bastasse acontecimento tal, eram, entre outras, as minhas preferidas.

Também eu andara amarela, porém, não assim radiante. Não assim dourada.

Andei pálida. Uma folha de caderno amarelecida.

Pus-me a chorar, desta vez, entretanto, de alegria.

Neste momento mesmo, enquanto as observo, resistindo ao tempo, cuidadas por mim e alimentadas pelo bem-querer de quem as enviou, a alegria de quando as recebi prevalece sobre as vicissitudes.

Uma alegria radiosa que reflete a certeza de que a vida é mais do que a gente planta, afinal, nem tudo nasce conforme a intenção do plantador.

Nem toda planta corresponde à intenção tampouco ao esforço de quem revolve a terra.

Existe, acima, a predisposição (ou não) do terreno abaixo. Além... considere-se o humor das estações.

Encarando o vaso, portanto, eu, que amarelecera após perder o chão e a raiz, recuperei o rosado natural do rosto.

Outra vez o teimoso sangue me corria pelas veias...

Sim! Eu ouvia ao pé do ouvido um zunido de beija-flores indo e vindo e, nessas idas e voltas, repetindo “a vida é mais do que a gente planta”.

“A vida” eles zuniam “é viver e cuidar; sobretudo tomar cuidado!”.
Chegadas e partidas, nessa vida, são mais frequentes (muito mais!) do que cartões que acompanham entregas de floricultura.

Amizades e quetais, por mais que se os plante, arrancar-se-ão sem que sejam necessários ventos que os soprem.

Arrancar-se-ão à vontade própria. Muitas vezes imprópria.

Muitas vezes insólita, haja vista nem tudo ser tão sólido.

O jeito é sempre plantar sem contar com o enraizamento, até que a morte seja o fato. E que esse fato seja, de fato, a morte nossa.

Amigos que partiram, então, partindo à época nosso coração, retornarão... ão ão ão... um e outro... todos... ou quase todos...

Alguns nem assim se farão outra vez presentes.

Todavia, se só para a morte não há... para tudo mais dá-se um jeito.

No caso, o jeito será ele, o entregador, figura que, desta feita, nos coroará de flores... dos pés à cabeça.

Valquíria Malagoli é poetisa e escritora

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