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O negócio é amor

Jundiaqui
26 de dezembro de 2017
Por André Kondo

Final de noite no trem. Embarca o homem de dreadlocks (já com alguns fios brancos), empoeiradas sandálias de couro nos pés, roupas surradas, cavaquinho a tiracolo. Seu sorriso contrasta com todas as caras amarradas dentro do vagão. Ele deseja a todos uma boa noite. Começo a soltar um “boa”, mas não termino a “noite”, pois fico sem graça diante do sepulcral silêncio da desinteressada plateia. Alguns viram a cara. O sorriso continua solitário, como um farol diante de um mar sem barcos. Os dedos buscam as cordas do cavaquinho e a voz começa o samba portelense:

“O negócio é amor, o resto é conversa fiada”.

Os passageiros estão com os rostos presos nos reflexos das janelas riscadas.
“Amanhã a gente morre, da terra não se leva nada”.

Falar de morte àquela hora poderia deprimir ainda mais as pessoas por ali, mas ele canta a morte com um sorriso tão vivo que nem parece se tratar da indesejável.

“E amanhã a gente morre, da terra não se leva nada”.

E ainda repete, para garantir que todos acreditem que um dia a gente morre mesmo. Afinado, passos de samba miúdos, dá um giro, ginga o corpo de um lado, agora para o outro, e os dedos dançando. Mas o povo ainda finge ausência. Acredito que o motivo seja simples: quem presta atenção tem que pagar pelo show. Uma moeda ou duas ou uma nota até? E todo mundo é muito apegado ao dinheiro para dá-lo a cada pedinte, mesmo que ele seja um artista.

“O negócio é amor...”

Uma garotinha vira no assento, mãozinhas no encosto, olhar espichado.

“O resto é conversa fiada...”

A criança o acompanha balançando a cabeça e, finalmente, sorri. Então, eu sorrio também. Percebo que aquele é um momento para se sorrir, já que crianças são boas para indicarem isso. Já estou convencido. Pego a carteira e busco um trocado.

“Amanhã a gente morre, da terra não se leva nada”.

Chegamos à próxima estação. Ele se aproxima da porta. Não pede moeda pra ninguém. Quando tento estender o trocado, ele recusa com uma mesura, sem tirar os dedos que se equilibram nas cordas da alegria.

Com um último cumprimento para a menina, o homem desembarca ainda cantando, sem carregar dinheiro algum, mas levando o sorriso da criança consigo.

É... o negócio dele era só amor.

(André Kondo ganhou o 3º lugar, categoria crônica nacional, no Prêmio Mário Quintana – 2017)

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