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O que se diz e o que se entende

Jundiaqui
22 de março de 2018
Por Valquíria Malagoli

Não, o título acima não é um plágio. É, antes, uma modesta homenagem a Cecília Meireles.

Mais uma vez encontrei-me com ela, ao folhear umas páginas, sem saber exatamente o que buscava.

O bom de não saber o que se procura é topar com uma surpresa.

Foi assim que, entre outros manjares, reli exatamente este que, ao invés de devorar sozinha, divido com vocês: “O que se diz e o que se entende”.

Nessa prosa, a exímia poetisa que, em vida, não se limitou à arte da versificação, como também escreveu livros infantis e importantes artigos sobre educação, discorre sobre curiosos episódios...

Tendo solicitado ao balconista um objeto azul, a protagonista ouve: “A senhora quer dizer... verde?”. No final desse primeiro ato, após certa contrariedade, triunfa a compradora, pois, trazido ao balcão o tal objeto, eis que aquele se exibe... azul!

Segunda cena. Cenário: loja de brinquedos. Ao pedir um caleidoscópio que, da rua, vira na prateleira, dá-se outro fato interessante: “A senhora quer dizer... tubo?”, diz, corrigindo-a, a vendedora. Enfim, agora, embora se tratasse realmente de um caleidoscópio, considerando o quanto de perto se mostrava sem graça, ela concorda, afinal, “bem merecia ser tratado como desprezível tubo.” mesmo.

Nova confusão ocorre quando a mulher quer comprar papel impermeável, todavia é informada pelo jovem atendente de sorriso profissional: “A senhora quer dizer papel metálico?” “Não, eu quero dizer papel impermeável mesmo.”.

Enquanto a leitura transcorre, não posso deixar (coisa recorrente) de traçar uma relação entre o que se lê e o que se passa.

Engraçado – para não dizer triste – como, por mais que eu me esforce, dificilmente sou compreendida. (E digo isso na certeza de que você que me lê, sim, me entende).

Desta feita, falo especificamente sobre quando faço versos. Se os ditos-cujos são metrificados: “você precisa se libertar dos grilhões da forma!”. Contudo, se versejo livremente: “o que houve com você?; está estranha!”.
Sorte que o pensamento é livre, não obstante medidas ou esse diz-que-diz!!!

Para os críticos especializados, que, embasados em teorias, analisam as obras literárias, segundo critérios vários de avaliação, seja a estética, seja a ideologia, seja qual for, pode ser que minhas mensagens toscas (em prosa ou verso) cheguem distorcidas e passem, até merecidamente, despercebidas...

Mas, sou ninguém.

Ninguém que, por sê-lo, toma emprestadas as palavras de Cecília: “o meu assombro é pensarem que eu sempre quero dizer outra coisa. Não! Eu sempre quero dizer o que digo.”.

Não por acaso, ontem, observava minha filha, num trabalho da faculdade, analisando um poema do Bandeira...

Que sorte terei eu, mera ninguém, se jamais alguém tiver sobre uma “obra” de minha autoria tal encargo.

Ah, as musas me livrem de ver trazido à obrigação e à rasura da compreensão humana algo a que, traspassada por uma flecha irracional, tentei dar pena.

A pena do escrever deveria apenas dar asas.

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa
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