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Re-soluções

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7 de janeiro de 2018
Poer Valquíria Malagoli

Excepcionalmente, nesse último passado, fiz um balanço de fim de ano.
Ruminei resoluções no intuito de confrontar, nos seguintes trezentos e sessenta e cinco dias, de modo mais pacífico, situações recorrentes.

Ser mais discreta é a primeira decisão. Sim. Felicidade à vista d’olhos incomoda, e eu não pretendo – com a minha – causar um sentimento avesso na maioria das pessoas, que não tem capacidade para diferenciar o que é amor do que não é; o que é ser livre do que é vadiagem.

Esses doze meses findos, encerraram também um tempo para digerir, a contragosto, que há quem goste de mim de graça, tanto quanto há quem me odeie sem que eu mereça. E há ainda quem finja amizade. Com certas fatalidades precisamos aprender a conviver ao invés de tentar lidar.
Portanto, serei eu para com os outros, sobretudo e inclusive para com os amigos verdadeiros, menos presente. Menos solícita. Exato. Deixá-los-ei à vontade. Acostumamos mal nossos amigos, quando queremos fazer-lhes demasiado bem. Facilidades atrofiam. Enfraquecem.

Decidi ser mais reclusa. Ler mais do que o habitual. Voltar a correr com disciplina. Escrever... escrever... escrever... Provocar e me divertir com esse exercício – o da escrita – no seio do qual me sinto tão diversa: ao mesmo tempo humanamente falível e momentaneamente sobrenatural.

Escrever... escrever... escrever... simplesmente fazê-lo. Escrever... escrever... escrever... Fazer mais disto que me faz bem, e que mal algum causa a quem quer que seja, haja vista poderem escolher se me leem ou se não.

Tirar menos fotos. Sim. Fotografias, não raro, prestam-se a coloridamente forjar os fatos. Quando for inevitável fazê-las, saberei ocultar o máximo possível minha figura. Apenas para olhar menos para mim; investigar-me menos. Isso tem doído.

Esse foi um ano particularmente triste nesse aspecto para mim. Percebi que forcei a barra, principalmente com meus filhos, pretendendo por orgulho materno exibi-los junto a mim, ou imaginando que “amanhã eu morro” e eles não terão lembranças concretas minhas. Ora bolas!... de repente não querem mesmo lembrar-se, e eu fico insistindo. Aí ocorrerá que se lembrarão, sim, só que de uma mãe muito inconveniente e pouco fotogênica.

Digerir isso e aquilo. Aprender a digerir essa indigestão e, digerindo-o, aprender a ser menos presente. Porque nem sempre nossa presença é a forma melhor sob a qual nos apresentamos.

Voltarei a dançar (embora “dançar” seja uma expressão muito generosa para esse chacoalhamento de ossos que faço) em meu quarto quando estou a sós comigo mesma... na sala quando estou sozinha com meus gatos, na cozinha quando requebro solitária ao ritmo sutil da fumaça do fogão ou invisível dos temperos me impregnando os cabelos.

Não preciso submeter ninguém a esse espetáculo escandaloso. Divertido, ok, porém, ridículo. Seja meu o meu ridículo um ridículo próprio, e que eu saiba distingui-lo impróprio no que excede meu espaço. Seja eu e tudo que cabe a mim exatamente assim: na medida interior e inócua como deve ser.

Não pararei para pensar na vida, em felicidade, amizade, amor, ódio. Não pararei para pensar em nada. Todavia, pensarei. Pensarei tão somente. Somente sem parar para tal.

Pensaram que eu pararia de vez de fazê-lo, não foi? Enganaram-se. Tudo bem. Eu me engano dia a dia... mês a mês... ano a ano... E segue a vida.

Valquíria Malagoli é escritora
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