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Releitura íntima

Jundiaqui
26 de abril de 2018
Por Valquíria Malagoli

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,/ Do cosmopolitismo das moneras.../ Pólipo de recônditas reentrâncias,/ Larva de caos telúrico, procedo/ Da escuridão do cósmico segredo,/ Da substância de todas as substâncias!”.

Início do século XX. Período de transição na literatura brasileira, haja vista não obstante ainda resistam tendências da segunda metade do século XIX, nas expressões artísticas, já percorram os ares lampejos da renovação modernista.

Na obra de Augusto dos Anjos, em cujos versos líricos e melancólicos revela-se uma incômoda reflexão, sobretudo no tocante às temáticas da morte e da putrefação da matéria, isto é nítido.

Seus poemas antecipam o Modernismo sem, contudo, esconder traços simbolistas, bem como influências também vindas tanto do Parnasianismo quanto do Decadentismo.

Andrade Muricy, estudioso do Simbolismo, dele diz: “seria o poeta que foi em qualquer época literária. Tal, porém, como se cristalizou, precisamente assim, só o pode ser porque passou pela atmosfera do simbolismo”.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos escreveu um livro só: EU, 1912, que, aliás, só atingiu grande vendagem após a morte do autor.

O título monossilábico, em vermelho que preenche a capa, parece sangrar. Dentro, claro e rasgado, o eu poético vocifera, dando mostra da fusão existencial, donde vem surpreendente vivacidade em linhas de total repúdio à matéria: “Quando eu pego nas carnes de meu rosto,/ Pressinto o fim da orgânica batalha:/ – olhos que o húmus necrófago estraçalha/ Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto”.

Para Órris Soares, o referido livro vale por uma autopsicologia. “O EU é Augusto, sua carne, seu sangue, seu sopro de vida. É ele integralmente, no desnudo gritante de sua sinceridade”.

Foi Órris, dramaturgo e amigo de mocidade do poeta, quem prefaciou a segunda edição do “EU”, tendo nela acrescido 46 composições. Eis o motivo de, nas edições seguintes, ler-se: “Eu e outras Poesias”.

Pois é... Encimava-me uma árvore frondosa./ Lá eu me sentara a fim de ler um livro/ – não qualquer um, mas, sim, leitura incrível –/ escrito em verso e não escrito em prosa./ O coração à boca... à frente arcanjos.../ – papagaios miúdos dentre os galhos,/ que alto salmodiavam com seus ralhos –/ assim lia e relia Augusto... e os anjos./ Mas, quanto mais supunha achar-me ali,/ mais funda e mais cruel a gran verdade/ batia-me com força na cabeça./ E é desde então que eu sei, pois, entendi/ que cada um é uno e há dualidade,/ mesmo que a gente até que se pareça!

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa
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