Jundiaqui
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Rococó

Jundiaqui
15 de novembro de 2017
Por Valquíria Malagoli

No dicionário, para “rococó” encontramos a específica definição: “diz-se do estilo artístico originado na corte francesa de Luís XV, caracterizado pela elegância afetada e pelo excesso de elementos decorativos”.

Muito bem... por razões de associação, o termo designa também tudo aquilo “que abusa de enfeites”.

Então... buscava eu não especificamente a definição para uma palavra, mas, sim, brincos que combinassem com o vestido específico para um evento idem...

A simpática vendedora, bastante menina, após várias demonstrações, apresenta-me um par.

– Ah nananinanão... esse não combina nadinha comigo; é muito cheio de rococós.

Ela hesita, porém por pouco tempo, haja vista já estarmos àquela altura nos divertindo com a conversa, e toma a liberdade de me perguntar: “você é daqui?”.

– Da cidade? Sim.

– Não, moça; desse planeta. Você é desse planeta?

Extraterrestre que sou, disfarcei surpresa e inquiri o motivo da dúvida. Apenas porque ao passo que a maioria gosta de chegar e partir das lojas e igualmente das vidas sem palavra sequer, feito a existência fosse um shopping, eu adoro – e preciso – conversar.

Adoro ouvir gente, adoro rir junto. Sinto-me gente e rio por meio dos outros. Que para mim não “são os outros e só”.

– É que você fala de um jeito que eu nunca ouvi. Usa umas palavras...
Esse episódio recente de similares recorrentes em minha vida refere-se a um simples choque de gerações, explicitado pelo uso e abuso de expressões anacrônicas.

Apesar disso não posso deixar de atentar ao fato de que, sim, meu lugar é outro.

Não o pressuponho um lugar especial, diverso e superior em níveis de pensamento ou de sensibilidade. Não mesmo! Só sei que aqui não é!!!

Quem nunca se sentiu assim em desencaixe com a realidade?
Não me diga que você nunca, senão acabarei crendo que de fato “eu não sou daqui... eu não tenho amor...”...

Todo mundo passa por momentos de desconexão tal com a forma como as coisas se dão, que mais nos parece que não fomos moldados em normal forma.

Aliás, o que é normal? Discussão improdutiva essa.

Da minha parte, não acho normal, por exemplo, que as mulheres ao se encontrarem chiquérrimas, penteadas, maquiadas, cheias de etcéteras e quetais, tais quais não fazem cotidianamente tampouco são de caras limpas, entusiasmadíssimas, digam umas às outras: “uau, que linda você está! – arrasou!”.

Não acho normal, por força de convenções às quais nos submetemos, nos metamos a dessa específica forma definir “belo” o artifício mais do que o artefato.

Tampouco acho normal que terminado o serviço no jardim aqui de casa me digam “pronto, tirei todos os excessos. Agora está tinindo de bonito.”, entretanto quando confiro o serviço vejo que as begônias e os kalanchoes intrusos desapareceram.

Sei que não sumiram por mágica.

Sumiram porque não se encaixavam. Excediam os limites da suposta normalidade, ali, no caso, determinada pelo desenho ao qual se definiu chamar de “jardim”.

O meu jardim, penso, deve ser o do Éden. E minha natureza é sentir-me expulsa.

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa
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