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Tapetes

Jundiaqui
6 de abril de 2018
Por André Kondo

O tuk tuk é um colorido triciclo adaptado com cobertura e banco para dois passageiros. Muito utilizado como táxi na Índia, suas três rodas simplesmente voam como um tapete mágico, pelo caótico trânsito das cidades indianas.

Disputando espaço com vacas e pedestres, seu condutor sempre toma cuidado para não atropelar as vacas sagradas, não se importando tanto assim em relação aos mundanos humanos. Contratei um desses veículos para conhecer a cidade de Varanasi, que é considerada uma das cidades mais antigas e sagradas do mundo.

Pedi ao piloto dessa exótica máquina me levar a Sarnath, onde o Buda pregou pela primeira vez. E lá fomos nós, enfrentando um trânsito de vacas, elefantes e até carros!

Paramos.

– Aqui é Sarnath? – perguntei desconfiado.

– Não, senhor. Aqui é o mercado de tapetes. O senhor não quer aproveitar para comprar um tapete?

– Não, obrigado – respondi, imaginando como seria carregar um tapete pelo mundo, uma vez que ainda viajaria por alguns meses até voltar para casa.

– Tem certeza? Conheço alguém que faz um preço muito bom para os meus amigos.

Fiquei imaginando se eu já era amigo do condutor de tuk tuk.

– Não, obrigado. Prefiro ir direto para Sarnath.

O piloto balançou a cabeça para os lados. E lá fomos nós.

– Aqui é Sarnath? – perguntei, com a certeza de que não era.

– Não, senhor. Aqui é uma lojinha de outro amigo meu. Tinha me esquecido dele! Ele vende tapetes mais baratos do que o preço de mercado. Não quer comprar um?

– Não, obrigado.

– É baratinho.

Em todo lugar do mundo, o baratinho sempre tem uma comissão. Se o guia de uma excursão visita uma loja, geralmente ele leva uma pequena porcentagem do dinheiro que o turista deixou lá. Mas esse nem era o problema, o problema era que eu não queria comprar tapete algum.

– Não, obrigado.

O piloto balançou o turbante para os lados. E lá fomos nós.



Buda já havia pregado em Sarnath, há dois mil e quinhentos anos, que tudo neste mundo é sofrimento. Comecei a acreditar nisso.

Nem perguntei se era Sarnath.

– Olha, o senhor ainda tem uma chance de comprar um tapete. Aqui…

– Meu amigo, por favor, já disse que não quero comprar tapetes. Tudo o que desejo é apenas ir para Sarnath! E se o senhor me levar para mais uma loja de tapetes, nem sei o que farei, mas sei que não será algo bom.

– Tudo bem, desculpe. Juro que não levo o senhor para outra loja de tapetes…

Era Sarnath.

Visitei os templos. Meditei. Senti uma paz profunda. E também me senti envergonhado por ter perdido a paciência com o condutor de tuk tuk. Pedi desculpas a ele e fomos embora.

Antes de chegarmos ao nosso próximo ponto de peregrinação…

Paramos.

Fiquei com medo de ver outra loja de tapetes.

– Senhor, não se preocupe. Prometi que não o levaria a outra loja de tapetes. Aqui é um museu e acho que o senhor vai gostar…

Senti um pouco de culpa por ter duvidado do condutor de tuk tuk. Caminhei até a entrada do museu. Sim, era um museu, pois na fachada estava escrito: “Museu do Tapete”.

Um sorridente bigodudo saiu para nos receber.

– Bem-vindo ao Museu do Tapete! O senhor tem muita sorte! Somente hoje, e só hoje, todo o nosso acervo está à venda!

André Kondo é poeta e escritor. Crônica publicada no livro "Palavras de Areia". 
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