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A terra de Angelina Zambelli

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22 de agosto de 2017
A ceramista e artista plástica se reinventa na exposição “Solos”, mostra Cláudia Bergamasco

“Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
E fecundar o chão”

Esse trecho da letra da música “Cio da Terra”, composta por Milton Nascimento, representa bem, na minha opinião, a fase atual da ceramista Angelina Zambelli. Sua exposição, “Solos”, em cartaz na Pinacoteca Diógenes Duarte Paes, no centro de Jundiaí, apresenta peças arredondadas como cuias, pequeninas, e, outras, pouco menores que um prato.

São as pequeninas, no entanto, que mais chamam a atenção do visitante. Por fora, barro queimado na cor do barro; por dentro, cores vibrantes e vítreas, mas ainda assim, em tons da natureza: verdes, azuis, vermelhos, marrons de vários matizes. Ora escorridas como um caldo, ora lambidas pelas cerdas de um pincel formando um círculo perfeito na imperfeição proposital da modelagem.

O fundo desses vítreos parece água. Difícil enganar a vontade de passar o dedo e ter certeza de que a imagem ilude os olhos. Trata-se de uma mistura de esmaltes com óxido de cobre. Quando queimados no forno de Angelina, paulistana que escolheu Jundiaí como sua casa há 17 anos, tomam as cores que a obra quer. Por isso nenhuma é igual à outra. Criador e criatura se reinventam a cada queima, a cada fornada.

O interessante é que essas cuias (ou pedras, ou bolas, ou conchas, ou tartaruguinhas ou o que o observador achar que sejam) entram num terreno feminino complexo. Remetem ao útero, ao acolher, ao dar (de comer, de beber, carinho), ao receber, ao calor, ao abraço de uma mulher que envolve sua cria. Olhar atentamente para as peças – que ora estão na horizontal, deitadas em mesas, e ora na vertical, penduradas na parede –, é como desenrolar um grande novelo de linha que nunca acaba. Porque a mulher, o feminino, o cuidado, são essências da vida e falar/pensar sobre isso é igual ao infinito.

Solos, a exposição, mostra técnica e coração. De mulher. De mãe, de esposa, de artista plástica. Mostra o envolver com mãos quentes. Mostra a cura, o colo, o aconchego, a segurança. A proteção ancestral e primordial. Primevo.

O projeto da sala em que estão expostas essas cerâmicas é assinado pela arquiteta e designer de interiores Larissa Carbone, que criou um ambiente limpo e ao mesmo tempo sensorial por conta da boa luminotécnica. Larissa seguiu os instintos acurados de Marco Anthonio André, que mais uma vez chancela a curadoria da mostra.



SERVIÇO
Exposição “Solos”, de Angelina Zambelli
Pinacoteca Diógenes Duarte Paes, rua Barão de Jundiaí, 109
Até 4 de setembro . Terça a sexta-feira, das 10h às 17h; aos sábados, domingos, das 9h às 16h. Grátis

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Claudia Bergamasco é jornalista

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