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Don’t go breaking my heart

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7 de junho de 2019
O filme "Rocketman" mostra aspectos da vida de Elton John que você provavelmente não conhecia, conta Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Talvez dos hits que Elton John cantou com intérprete inglesa Kiki Dee (quiçá o único grande sucesso em toda a carreira da moça), "Don’t go Breaking my Heart", lançado em 1976, fosse apenas um hit, um dos muitos hits que EJ emplacaria. No fundo, saberíamos algum tempo depois, era um pedido de socorro bem embalado, assim como muitas das letras incríveis escritas pelo companheiro de trabalho de mais de 50 anos, Bernie Taupin, que soube interpretar a alma de EJ tão bem que, suponho, nem EJ saberia.

E foi algo assim por acaso. Um encontro por meio de um anúncio de jornal, em Londres. Elton precisava de um letrista, Bernie precisava de alguém que cantasse suas canções. Elton, então Reginald Kenneth Dwight, ou Reggie, soube colocar música nas letras de Bernie com maestria. Tornaram-se sucessos mundiais e, antes dos 25 anos de idade, EJ e Bernie eram milionários e conhecidos em quase todo o planeta.

Mas – sempre há um “mas” – a fama e a fortuna não conseguiram apagar a solidão e a falta de amor de EJ desde criança. Filho de pai militar, o comandante de esquadrão da Força Aérea Real, Stanley Dwight, jamais lhe tocava – “quando você vai me dar um abraço? Reggie, não me aborreça, tenho coisas mais importantes para fazer”, dizia mais ou menos isso, com extrema grosseira e rejeição pelo próprio filho. Introspectivo, ele também não demonstrava qualquer afeto à esposa, Sheila Eileen Harris, uma dona de casa fútil tão desinteressada em Reggie quanto o pai. Esse desamor causou transtornos refletidos em quase toda sua carreira, que nem por isso deixou de ser esplêndida.

Esse aspecto da vida de EJ fica bastante claro no filme "Rocketman", em cartaz em Jundiaí, que eu fui assistir logo na estreia, como boa fã que sou – na verdade temi que o filme saísse de cartaz antes que eu pudesse ver, como é comum acontecer aqui na cidade.

Confesso que fui achando que não ia gostar da fita. Vi um documentário de 15 minutos, se tanto, na TV, sobre o filme, e pensei ihhh, vai ser uma merda. Para minha surpresa, estava totalmente enganada. O filme é bom. Tem lá seus momentos de musical B da Broadway, mas é profundo. Mostra um Reggie inseguro, rejeitado, travado pelos pais, encerrado no quadradinho que seus pais o enfiaram. E ele com todo aquele potencial para sair da caixa e arrebentar. Talvez esse tenha sido um dos motivos, um dos dínamos para que ele estourasse nas paradas de sucesso, entre outros fatores. Não se pode negar seu talento nato no piano e para suas loucas performances no palco, que levaram milhões à loucura.

O elenco é ótimo e a direção de Dexter Fletcher saiu do óbvio. A história é irregular. Não segue uma linha do tempo. Partes da infância se misturam com a fase adulta com delicadeza, embora mais se pareça com uma colcha de cacos de vidros, tanto por machucar quanto pela sutileza com que é exposta. O ator que interpreta Elton, Taron Egerton, convence muito bem. Sua caracterização está impecável. Muitos shows foram feitos com EJ totalmente chapado, mas nem por isso (ou por isso mesmo) ele deixou cair a peteca. Eu arrisco a dizer que não era a droga que fazia a performance de Elton ficar ainda mais efusiva, porque ele vem mantendo um ritmo de shows até hoje incrivelmente bom para sua idade. O que mais impressiona é como seu corpo aguentou tanto de tudo (graças a Deus aguentou).

“...E como tem compleição de um boi e a energia de uma pequena nação, espero que ele ainda nos surpreenda mais algumas vezes antes de terminar”, escreveu David Buckley, autor da biografia não autorizada de EJ. “Para mim, a maior surpresa até agora é o fato de ele ter conseguido sobreviver a décadas de poder, pressão e bajulação sem ter enlouquecido”, completa Buckley.

Sem comparações, por favor - Quando EJ percebeu que teria que matar Reggie para todo o sempre e virar Elton John, nasceu um novo homem, com uma vida extraordinária e um dos maiores compositores e intérpretes de todos os tempos. Na minha opinião, a força de Elton é incomparável. Não se pode fazer um paralelo com ninguém do mundo do rock, como algumas pessoas vão fazer. Queen, Beatles... EJ é EJ. Apenas isso, Elton John. Só pode ser comparado a ele mesmo. Muitos inovaram. EJ é único cara que eu lembro de ter tocado cravo numa de suas canções: a primeira versão de Skilyne Pigeon.

Segundo "Rocketman", fama e fortuna não apagaram o passado. A dor da falta do amor continuava lá. Milhões o amavam, mas ele se sentia sozinho e vulnerável, situação que o fez juntar-se a pessoas interesseiras, sanguessugas, atrás de sexo e dinheiro. Como seu agente, com quem ele foi “casado” por 20 anos, e até mesmo sua mãe, que gostava demais da gorda grana ele ganhava e o acusava de nunca de ter trabalhado na vida, de ter tudo de mão beijada. Oi??

Mais ou menos em meados da década de 1970 – quando eu tinha uns 6 ou 8 anos, no máximo, e conheci EJ, o cara que se tornaria o cantor internacional de rock mais importante da minha vida, EJ já tinha lançado seu segundo single, Your Song, que alçou ele e Bernie ao sucesso.

Três anos depois, o rádio aqui no Brasil tocava "So Goodbay Yellow Brick Road". A letra de Bernie Taupin faz referência ao filme "O Mágico de Oz" (Victor Fleming, 1939), baseado no livro de L. Frank Braun. A “estrada dos tijolos amarelos” levava ao lugar “além do arco-íris” onde todos os sonhos da menina Dorothy (interpretado por Judy Garland) poderiam ser realizados (décadas depois EJ comprou o vestido que Judy Garland usou para interpretar Dorothy por algumas centenas de milhões de dólares).

Um arco-íris embalado em viagens lisérgicas, porque foi também mais ou menos nesse período que EJ teve um longo “casamento” com as drogas, o álcool, o sexo sem limites, a bulimia, o descontrole da raiva, os pitis. EJ era magnífico no palco, virava outra pessoa quando vestia seus costumes cada vez mais e mais extravagantes. E quanto mais extravagantes suas roupas, maior o seu sucesso, maiores os pitis, maiores as doses de álcool, todas as drogas possíveis e imagináveis, até latas de cola, e muito sexo. “Transei com tudo o que balançava. Experimentei todo tipo de droga. Eu me diverti, mãe”, disse EJ para sua mãe de um telefone público em Londres quando decidiu sair do armário e contar para a ela que era “homossexual, maricas, bichinha”, mostra o filme.

- Oh, Reggie, eu já sabia. Sabia que você escolheu nunca ser amado”, respondeu a mãe, sem nenhum prurido, escrúpulo ou hesitação por dizer isso a seu próprio filho.

Não bastava ser rico e famoso, ele “nunca seria amado”, frase que ficou martelando em sua cabeça por décadas. Daí as várias tentativas de suicídio e as muitas internações em clínicas de reabilitação.

Para EJ, o fundo do poço nunca era o fundo do poço. O fundo do poço sempre era mais e mais fundo. A mesma coisa pode-se dizer das loucas festas e da sua “alegria”. Sempre ao extremo. Tudo era ao extremo para ele. Talvez fosse uma forma de se liberar das correntes e argolas, do sufoco familiar, principalmente patriarcal, que ainda sentia. “Eu queria ser outra pessoa”, ele disse quando ainda era Reggie e não tinha ideia que, sim, seria outra pessoa.

Você pode não gostar de EJ, muita gente não gosta, mas não se pode negar sua importância para a música, para o rock mundial.

Reggie, o garoto, sabia ler música e tocava com competência. Na verdade, conforme os amigos, o cara era bom mesmo. Ele arrasava com um rock’n’roll ianque até com uma colher na boca, martelando o teclado do piano com suas mãos pequenas, gordinhas e dedos grossos de forma percussiva para se adiantar um pouco na melodia.

Em mais de seus setenta anos de vida (72 completados dia 25 de março deste ano, um dia depois de mim – ariano porreta como eu, ueba!!) – EJ “acumulou mais sucessos do que qualquer músico vivo, mais triunfos, mais desastres, mais diversão e, é claro, mais músicas”, diz Buckley em seu livro. “Foi uma vida vivida ao máximo, tanto em sua fraternidade quanto em seu entusiasmo quase infinito pelo mundo e tudo que há nele.”

A única sacanagem de Rocketman foi não ter mostrado em nenhum momento a banda de EJ. Artistas que o acompanham do início até hoje, como Nigel Olsson, Dee Murray, Ray Cooper, Davey Johnstone. Eles mereciam estar na fita.

Como nada é para sempre e o destino tem sempre uma carta na manga reservada para cada um de nós, foi numa clínica de reabilitação que EJ conheceu David Furnish, que se tornaria seu marido e é um dos produtores de Rocketman. Casados de papel passado desde maio de 2005, têm dois filhos lindos. Com David, EJ finalmente conheceu o amor verdadeiro, pode amar e ser amado até hoje e para sempre. Do jeitinho que ele escreveu na canção "I Want Love":

I want love, but it's impossible (quero amar, mas é impossível)
A man like me, so irresponsible (um homem como eu, tão irresponsável)
A man like me is dead in places (um homem como eu está todo dilacerado)
Other men feel liberated (outros homens sentem-se liberados)

I can't love, shot full of holes (não posso amar com tantas feridas)
Don't feel nothing, I just feel cold (não sinto nada, apenas frio)
Don't feel nothing, just old scars (não sinto nada, apenas velhas cicatrizes)
Toughening up around my heart (que vão endurecendo meu coração)

But I want love, just a different kind (mas eu quero amar, de um jeito diferente)
I want love, won't break me down (quero um amor que não me decepcione)
Won't brick me up, won't fence me in (que não me oprima, nem me prenda)
I want a love, that don't mean a thing (quero um amor sem grandes pretensões)
That's the love I want, I want love (é o amor que quero, quero amar)
(...)

Eu vi - Eu fui. Dancei, cantei junto, pulei, gritei, me emocionei. Tomei chuva à beça, empurrei e fui empurrada, xinguei (sai da freeeenteeee!!). Coração pulando do peito, olhos grudados no palco. As luzes e efeitos cenográficos refletindo em mim, na minha cara, no meu corpo. Corpo todo em êxtase, corpo inteiro um só coração. Cansaço, rouquidão, molhada que nem um pinto, mas feliz da vida. Feito LSD, o artista na veia. Loucura, delícia de iniciante, transe total.

Foi assim que me senti a primeira vez que vi um show do Elton John. Lá no fim dos anos 1980, quando ele veio, se não me engano, pela primeira vez ao Brasil. Vi pequenininho meu ídolo desde criança porque eu estava sentada lá em cima, na arquibancada da pista de corrida do Parque do Ibirapuera. Ao meu redor, só fãs de trinta ou quarenta anos para cima. Todos na mesma sintonia, cantando em inglês de cor e salteado todas as músicas e bem alto. Prazer inenarrável.

O tempo passou e eu fui de novo. Mas demorou. Em 2013, vi "a Diva" no Jockey Club, São Paulo. Fiquei muito mais perto dele. Uns 200 metros – o mais próximo que cheguei de EJ. Tudo o que senti a primeira vez que o vi estava lá comigo. Ah, eu me acabei no Jockey. Saí de lá, depois de duas horas de show, apática de tanta adrenalina. Como da primeira vez, voltei para casa acabada e feliz. Chuvinha fina e voz solta cantando as canções que embalaram minha infância e, depois, minha fase adulta, contribuíram para fechar minha garganta. Imagina se eu me importei. Queria mais. E mais e mais. Como uma droga. De novo. EJ é uma droga das boas para mim. Não me canso nunca – e não me faz mal.

O sonho de vê-lo ao vivo depois de tantos e tantos anos de devoção foi realizado duas vezes. Nem acreditei. Quando ele começou a cantar "Goodbay Yellow Brick Road", música que me iniciou no mundo Elton John, balões amarelos subiram aos céus, soltos por todos que assistiam o espetáculo. Elton pareceu surpreso, mas acho que ele sabia e gostou. O telão mostrou um sorrisinho de canto de lábios enquanto olhava para a plateia, tocava seu piano fantasticamente e cantava. A turba enlouqueceu. Uma só voz cantando com ele. Arrepio na pele só de lembrar.

Meu sonho dourado é assistir a um show de EJ no Carnegie Hall, em Nova York, só para convidados VIPs. Nesse dia, ele vai cantar "Your Song" dedicada a mim e, no camarim, vou ganhar um abraço de urso, um beijo e um convite para me sentar ao lado dele e conversar.

Sonhar faz parte da vida.

Vida longa ao Rei/Rainha, Sir Elton Hercules John! Love You!

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