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Noel, Natal e outras bossas…

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20 de dezembro de 2017
Por Beto Brim

Então é Natal…

Este é o primeiro verso, e também o título, de uma canção gravada pela cantora Simone e exaustivamente executada naquele final do ano de 1995. Trata-se da versão brasileira, feita por Cláudio Rabello, da música "Happy Xmas" ("War is over") de John Lennon e Yoko Ono e originalmente lançada em 1972.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde é uma tradição no mercado fonográfico, o disco “25 de Dezembro” da cantora Simone foi o primeiro trabalho de um artista brasileiro exclusivamente dedicado às canções natalinas. Grande sucesso de vendas na época, o disco abriu caminho para que outros músicos seguissem a mesma fórmula, como o fizeram Ivan Lins, Chitãozinho e Xororó, Roupa Nova e até a veteraníssima Bibi Ferreira.



Muito se comenta sobre a perda da magia, do caráter simbólico, afetivo e religioso do Natal. O ritmo frenético dos fatos, a quantidade e disponibilidade maciça de informações, o clima de urgência constante e a extrema comercialização da data, são fatores citados como responsáveis por essa tendência crescente. Assim, um Natal parece estar cada vez mais próximo do outro.

Mas, de qualquer forma, é mais um Natal. E música tem uma ligação fortíssima com a data.

Exemplo disso é a tradicional “Jingle Bells”, a mais famosa canção de Natal, praticamente parte do imaginário popular na maioria dos países. Originalmente a música chamava-se “One Horse Open Sleigh” e havia sido composta em 1857 pelo americano James L. Pierpont, para as comemorações do Dia de Ação de Graças, o mais importante feriado para os americanos. No Brasil essa canção ganhou uma versão feita por Evaldo Ruy e gravada em 1951 pelo cantor João Dias, famoso na era do rádio. Em 1958 o conjunto vocal Golden Boys, algum tempo depois muito popular na época da Jovem Guarda, também registrou uma versão.

Mas a canção natalina mais vendida e executada de todos os tempos é o sucesso “White Christmas”, composição de Irving Berlin, cuja gravação do cantor Bing Crosby em 1942 é a mais famosa entre muitas. A canção foi regravada ainda por Frank Sinatra, Elvis Presley, Ray Connif Singers, Andrea Bocelli e, mais recentemente, por Lady Gaga. No Brasil ganhou versão de Marino Pinto e foi gravada pelo Rei da Voz, Francisco Alves, ainda nos anos 40.

Mas essas são versões brasileiras da visão americana do Natal. Haveria uma visão musical brasileira da data?

Sim. E várias e bastante originais.

Composta por Assis Valente, um dos grandes compositores da era do rádio, a marchinha “Boas Festas”, do ano de 1932, foi gravada com grande sucesso um ano depois pelo cantor Carlos Galhardo. Embora musicamente tenha características de uma marcha carnavalesca bem brasileira, a letra manifesta uma visão bastante melancólica do Natal e bastante coerente com a história pessoal do autor. Nos versos da música “Boas Festas”, menino pede diretamente ao bom velhinho:

“… Papai Noel, vê se você tem a felicidade para você me dar”.

Mais à frente continua com a frase:

"Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel e, assim, felicidade eu pensei que fosse uma brincadeira de papel.”

Arremata a música com versos bem realistas e amargos:

“Já faz tempo que eu pedi mas o meu Papai Noel não vem, com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem.”

A música ainda seria regravada no início dos anos setenta pelo genial e irreverente conjunto Os Novos Baianos e, mais recentemente, pelo grupo mineiro Pato Fu.

Outra visão musical natalina bem brasileira, essa em forma de valsinha, é a canção “Natal das Crianças”. Composta e interpretada pelo cantor Otávio Henrique de Oliveira, cujo nome artístico era Blecaute, essa composição é de 1952. Órfão de pai e mãe ainda aos seis anos, antes de se dedicar à carreira artística trabalhou com engraxate e jornaleiro. Embora identificado como cantor de grandes sucessos carnavalescos e tendo tido uma infância difícil, imprimiu uma visão bastante lírica e espiritualizada do Natal, ao contrário de Assis Valente:

“Natal, Natal das crianças, Natal da noite de luz
Natal da estrela-guia, Natal do Menino Jesus”.

E segue:

“Bate o sino na matriz,
Papai, mamãe rezando
Para o mundo ser feliz.”

Mas, sem dúvida, a mais original das músicas natalinas do cancioneiro brasileiro é o pouco conhecido samba “Véspera de Natal”. Nascido em Valinhos com o nome de João Rubinato, o filho de imigrantes italianos ficou nacionalmente conhecido com o nome artístico de Adoniran Barbosa, ficou famoso com sucessos como "Saudosa Maloca", "Trem das Onze", "Samba do Arnesto" e "Tiro ao Álvaro", entre outras geniais criações. Mas também compôs esse genial e brasileiríssimo samba de Natal.



Gravado em 1974, “Véspera de Natal” traz versos que descrevem, tal qual roteiro tragicômico, a cena de um pai de família de parcos recursos materiais tentando proporcionar uma noite feliz de natal para os filhos. Vale transcrever integralmente:

"Eu me lembro muito bem
Foi numa véspera de natal
Cheguei em casa
Encontrei minha nega zangada, a criançada chorando,
Mesa vazia, não tinha nada.

Saí, fui comprar bala mistura,
Comprei também um pãozinho de mel
E cumprindo a minha jura,
Me fantasiei de papai noel

Falei com minha nega de lado
Eu vou subir no telhado
E descer na chaminé
Enquanto isso você
Pega a criançada e ensaia o dingo-bel

Ai meu deus que sacrifício
O orifíciu da chaminé era pequeno
Pra me tirar de lá
Foi preciso chamar,
Os bombeiros."

Beto Brim é historiador e músico

 
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