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Na contramão da nossa tradição

Jundiaqui
29 de agosto de 2017
Por Marcel Capretz

A tendência do futebol brasileiro é produzir times cada vez mais sólidos e fortes na defesa. E isso nos choca. Nos incomoda. Nos deixa encafifados.

Chegamos a ser os maiores campões do mundo pela beleza e efetividade do nosso futebol ofensivo. De Garrincha, passando por Pelé, Romário e Ronaldo encantamos o planeta com dribles, jogadas de efeito e gols bonitos. Isso criou no país uma cultura futebolística ofensiva. Quase que uma obrigação de jogar bonito sempre. Essa cultura, porém, esta cada vez mais sendo coisa do passado. Pelo menos no que diz respeito ao nossos times locais.

Vários fatores, também culturais, explicam essa tendência. Partimos do pressuposto que é muito mais fácil destruir e marcar do que construir e jogar pra frente. Dessa forma, para se criar ideias e conceitos ofensivos de jogo, passando por sub-princípios como amplitude, mobilidade, profundidade, apoio, etc, é necessário um entendimento muito maior do jogador e uma extrema capacidade do técnico em dar treinamentos específicos para isso.

Nos acostumamos aqui a treinar as defesas. No ataque sempre prevaleceu a máxima "deixa que o talento resolve". Hoje não é bem assim. Só o improviso, o drible, o um contra um não vai ser suficiente. E como os técnicos aqui, com raras exceções, são interinos desde o momento que são contratados, é muito mais seguro apostar na defesa.

Eficientes sistemas defensivos são arquitetados, todos com muita compactação, cobertura, bloco... E para atacar se aposta no bom e velho contra-ataque.

Que fique claro aqui: vejo muita beleza em uma defesa bem armada e uma transição ofensiva bem executada. Dominar o jogo pelo controle do espaço e não pela posse de bola é algo bem válido. A minha questão é: até que ponto estamos respeitando a identidade do futebol brasileiro vendo no nosso campeonato da primeira divisão cada vez mais defesas estruturas e ataques sofríveis?

A culpa é só mesmo dos técnicos? Ou mecanizamos nossas categorias de base, perdendo as vantagens que a formação lúdica do futebol de rua nos trazia? Ou até mesmo essa coisa de identidade seja algo do passado e após o 7 x 1 da última Copa do Mundo caímos na realidade e vimos que o futebol brasileiro não tem mais uma cara?

Talvez um pouco de tudo. Talvez bastante de tudo. Mas saiba, torcedor, que o futebol brasileiro vem há tempos se transformado. Infelizmente, mais pra pior do que pra melhor.

Marcel Capretz é jornalista esportivo

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