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Diário de Bordo 2

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19 de dezembro de 2017
Educação é chave para uma cidade ser de primeiro mundo. Seremos um dia?, questiona Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Sustentabilidade é um hábito e uma palavra bem comuns em Bilbao, cidade do país Basco, Espanha. Para mim, ficou muito claro que a população sabe bem o significado de reciclar, repensar, reutilizar, reduzir (o lixo, o desperdício, o consumo inconsciente), recusar o que não é necessário (sacolinhas plásticas, por exemplo), respeito (à cidade, ao cidadão, ao dinheiro que eles pagam para manter a cidade em pleno funcionamento, limpa e linda) e, claro, a responsabilidade de fazer tudo isso. Sem sustentabilidade, a cidade não seria a mesma – qualquer cidade não se sustenta sem que cada um de seus habitantes se responsabilize por atitudes de cidadania, respeito à urbe e ao próximo.



Não vou fazer apologia à necessidade de o mundo se tornar mais sustentável para sua própria sobrevivência e, por consequência, da nossa, seres humanos. Vou falar sobre educação. Os bilbos (ou bilbaerenses) têm atitudes que até eu, que me considero bem-educada e relativamente esclarecida, teria dificuldades em assumir num curtíssimo período de tempo. Eu necessitaria de alguns meses, talvez, para me adaptar e introjetar a educação local. Não é educação formal, aquela que se aprende na escola. É educação de cidadão. Por exemplo, atravessar a rua. Lá é assim: o sinal está vermelho para pedestres e não se avista carro de nenhum lado, a via está completamente livre. Pois ninguém, ninguém mesmo, atravessa a rua enquanto o sinal não fica verde. Segui a regra algumas vezes, mas muitas a infringi, admito.



Outra atitude interessantíssima e que, creio, jamais daria certo no Brasil, diz respeito ao transporte público. Para pegar a tranvia (se diz tránbia, com “a” aberto) ou trixa (o Euskotren que falei no Diário de Bordo 1) é preciso de um tíquete que você compra num totem computadorizado instalado em todas as estações em que ele para. Você introduz qualquer nota de euro, escolhe se quer carregar seu cartão (é preciso fazer um cartão de viagem para carregar mais de uma passagem) com 5, 10 ou 30 euros ou compra apenas uma passagem, que custa 1,50 (qualquer transporte público custa entre 1,45 e 1,50 euros em Bilbao atualmente). Eu comprei um bilhete single porque achei que iria andar muito pela cidade a pé, mas não é bem assim. O cansaço te pega, as pernas doem, o jet leg de quatro horas para frente e a falta de sono lhe obrigam a passear com um certo conforto.

Então, como disse, comprei uma só passagem. Introduzi uma nota de 5 euros e a máquina me devolveu o troco certinho. Sentei para esperar a trixa (que se parece com um trem de metrô de solo supermoderno) e percebi que todos que ali chegavam validavam seus cartões ou tíquetes nesses totens. Só que não havia nenhum guarda ou responsável para controlar a validação. As pessoas validam seus cartões sem que ninguém as obrigue a isso. Pensei comigo: e se o viajante não tem dinheiro, esqueceu o cartão ou algo assim? Se for um bilbo, ele não pega o trem. Vai para casa ou ao trabalho a pé ou de carona.

Se fosse um brasileiro, como eu, o que você faria? Entraria no trem, já que as portas são automáticas e ninguém passa para ver se você pagou, certo? Geralmente aqui é assim. Em Bilbao não. Ninguém pega o transporte público sem pagar. Eu mesma peguei a trixa sem pagar (ou com o mesmo bilhete comprado no dia anterior), mas não demorei a me sentir mal em transgredir as regras locais. Senti que enfatizei uma atitude comum do brasileiro. Então, comprei bilhete para uma semana e andei para lá e para cá aliviada.



Eu fiz o certo numa cidade inteira fazendo o certo (é lógico que estrupícios existem em qualquer cidade do mundo e em Bilbao não é diferente, mas não vi nada nem ninguém assim). No Brasil, onde imperam a impunidade a Lei de Gerson vale mais que a Constituição, acredito que esse sistema faria água na primeira semana de funcionamento, porque ninguém pagaria sem que fosse obrigada a isso.

O brasileiro é um povo bacana, mas já nasce com o DNA do “jeitinho”, de fazer errado achando que está fazendo certo porque paga imposto (a maioria, pelo menos) e o governo não faz valer a montanha de dinheiro que damos a ele. Mais que isso, temos uma atitude de gente que gosta de levar vantagem, seja aqui ou em outro país. Uma tristeza.

Minha constatação é que o Brasil jamais chegará ao nível de país de primeiro mundo no que diz respeito à educação de seu povo. Jamais seremos o que os bilbos são. Nem eu, nem você, nem seu filho, seu neto, seu tataraneto nem as muitas e muitas gerações que virão depois de mim, depois de você, do seu filho, caro leitor.

Nossa infraestrutura é falha demais, nosso plano diretor é um novelo de lã que o gato brincou – um caos cheio de problemas e nós que jamais serão resolvidos. Esse caos fica transparente quando você vê a cidade de cima, próximo de o avião pousar (no meu caso, em Guarulhos). A visão impressiona. Negativamente.

Além disso, temos todos, incluindo eu, incrustrado nas nossas entranhas um jeito brasileiro de ser. Ou seja, o sinal está fechado para você, mas você atravessa a rua. Se tem oportunidade, anda de ônibus ou metrô sem pagar, rouba/afana o que não deve, depreda o patrimônio público, acha alguma coisa na rua e não devolve para o dono ou para um local onde ele poderá reaver o item. Não recicla seu próprio lixo, aplica a lei de Gerson sempre que possível e por aí vai. Situação tristíssima, mas real. Há exceções, mas exceções não fazem o Brasil se tornar um Brasil bem melhor do que é hoje.

CIDADANIA - O urbanismo espetacular de Bilbao dá certo porque o governo investe pesado nesse quesito e muito porque o próprio cidadão cuida da sua cidade. Praças, aparelhos urbanos, ruas inteiras são altamente arborizadas, com floreiras de madeira cheia de espécies coloridas. As praças têm um desenho em que o pedestre nunca vai fazer caminho por entre as plantas, como é comuníssimo no Brasil. Tudo é colorido pelo verde e ninguém mexe. Ao contrário, as pessoas cuidam. Ai de quem pisa, tenta pegar uma flor, bater uma foto no meio das flores ou algo do tipo. Leva bronca de qualquer um que presencie a cena. Como é mesmo que acontece nas terras verde-amarelo?

Pois é.



Na tranvia, fiquei impressionada com a limpeza, o conforto, o silêncio, o espaço interno. Como a cidade é muito convidativa aos esportes, corrida principalmente, muitos entram com bicicleta. Carrinhos de bebê vão com facilidade e comodidade, assim como pessoas em cadeira de rodas. Em São Paulo, tente entrar com bicicleta às cinco da tarde em qualquer linha do metrô. Ou você vira sardinha, ou corre o risco de ser assaltado ou simplesmente não consegue entrar. Eu tirei umas fotos do Euskotren no final de uma das linhas que tomei para mostrar como é: limpo, espaçoso, tranquilo e extremamente seguro. Igual aqui, né? (veja as fotos no Diário de Bordo 1).

Segurança é outro fator que me chamou atenção. Você anda pelas ruas que margeiam o Rio Nervión com uma segurança impressionante. Ninguém vem lhe incomodar (e olha que eu estava na condição de mulher estrangeira andando sozinha). Não há camelôs ou barraquinhas disso ou daquilo. O que se vê muito são pessoas praticando corrida, velhos andando com suas boinas de lã, fazendo esporte, famílias com seus bebês e cães (muitos cães felizes por toda a cidade). Eu percorri quase três quilômetros a pé do Guggenheim até o meu hotel por essa rua só para pedestres que margeia o Rio Nervión sem nunca ser abordada por quem quer que seja. Mesmo quando a tarde já caía e o sol dava lugar ao lusco-fusco do anoitecer.

MUDANÇA DE HÁBITO – Os sistemas de trânsito, transporte público e para pedestres são impecáveis. Já se tentou melhorar bastante esse sistemas em São Paulo, principalmente ao longo da Marginal Pinheiros, mas até agora todos os projetos apresentados (para lá de bons) não saíram do papel e nós continuamos com um rio fétido, infestado de mosquitos no verão, com suas margens perigosas e desprezadas. Poderia ser diferente? É lógico! Se houvesse real interesse político. Em Jundiaí, a Avenida Nove de Julho poderia ser diferente do que é, mais “lovely” aos pedestres, aos praticantes de esportes? Claro que sim! Temos espaço físico para isso. O que não temos é vontade e pulso firme na política. Houve reformas urbanas, mas nenhuma elevou o grau da cidade em qualidade de vida. Não estou afirmando que não temos qualidade de vida em Jundiaí, mas ela poderia ser milhares de vezes melhor se nossos prefeitos fossem mais ativos e proativos e levassem a cabo projetos urbanísticos que realmente fizessem a diferença e mudassem hábitos dos jundiaienses. O problema é que mudar hábitos costuma ser um processo longo.

Em Bilbao, ao longo do rio, existe uma larga faixa para o trânsito de pedestres. O rio não tem cheiro, foi completamente despoluído. Ao lado desta via, existe uma faixa de terra para árvores. Ao lado, tem uma via para carros, que passa um por vez em velocidade baixa. Outra faixa de árvores e, de novo ao lado, a faixa para a tranvia. Ainda ao lado disso tudo, entram novamente as ruas (mais largas) para carros e as calçadas. Essas são mais movimentadas e o urbanismo é sempre presente. Bilbao já é uma cidade entre montanhas, ou seja, rodeada de verde. O belíssimo projeto urbanístico aumentou ainda mais esse verde e preservou a característica das construções de séculos atrás.



Em suma, Bilbao é uma cidade única. É a terceira vez que vou à Espanha, a primeira num país basco e, sem exagero, é uma das cidades mais lindas que já conheci na Europa. Não conheço outras cidades bascas, mas Bilbao é realmente surpreendente. Suas ruas largas, completamente arborizadas, suas muitas praças cheias de graça e muitas, muitas flores, sua arquitetura sui generis são de encher os olhos. Mais que isso, Bilbao respira arte, design (que está até em placas de rua) e o bem viver. Muita gente aproveita a siesta para sentar em cafés com suas mesas e ombrelones nas calçadas para petiscar e degustar um vinho “da casa”. Eu fiz igual, claro. Um regalo e tanto para mim que amo vinho espanhol, especialmente os crianza de qualquer casta.



VERDE X ARIDEZ – O resultado disso tudo é eficiência e uma baita diferença no estilo e na qualidade de vida. Acredito que essa diferença contribua para a educação cada vez mais afinada de seu povo. Agora pense no Brasil, qualquer cidade do Brasil. Ok, São Paulo tem 40 vezes ou mais o número de habitantes, mas não justifica o fato de não termos equipamentos urbanos e projetos urbanos melhor adaptados e adequados.

Jundiaí também não tem a mesma configuração geográfica que Bilbao, mas temos mais ou menos o mesmo número de habitantes (em 2006, 345 mil em Bilbao e 410 mil em Jundiaí com números arredondados). Qual é a diferença entre essas duas cidades? A educação. A vontade política. Aqui, como disse no artigo anterior, mais destruímos do que restauramos. Pouco fizemos em restauração – o Politheama e, depois de muito palavrório, a Ponte Torta, são os melhores exemplos.

Mas, e o Solar do Barão? E o Grande Hotel? E as construções seculares da Avenida Jundiaí – uma delas virou uma loja de móveis e agora está sendo parcialmente descaracterizada. Muitas viraram bancos. E o “morrão” em frente à Câmara Municipal? Teve que ser fechado ao público por falta de segurança e sujeira. Naquele pedaço lindo da cidade, sobrou a belíssima construção que hoje é a Pinacoteca Municipal Diógenes Duarte Paes.

Eu sei e posso dizer isso porque morei naquela rua quando criança, pré-adolescente. Vi o velho Politheama funcionando ainda como cinema, vi seu fechamento por décadas e vi seu renascimento. A Pinacoteca era uma escola e, graças a Deus, foi preservada. O industrial, que já foi uma escola ícone em Jundiaí, continua lá, mas degradado. Porque não temos prefeitos com peito para fazer de Jundiaí uma cidade realmente linda, preservada e com identidade própria? Porque não temos mais verde na cidade? Não entendo e nunca entendi o motivo pelo qual as pessoas cortam as árvores da frente de suas casas e não replantam nada. Porque a cidade não é muito mais arborizada? Porque essa aridez? Porque dá trabalho? Ah, faça-me um favor! Alô, Sr. Luiz Fernando Machado, atual prefeito da cidade. Fica a dica, viu?



GENTILEZA – Outra característica bem bacana é o tratamento que os bilbos dispensam aos turistas. Quando cheguei ao pequeno aeroporto, peguei, na porta, um ônibus que me levou até o centro da cidade. De lá, eu teria que pegar outro transporte para chegar ao meu hotel. Sem conhecer nada e carregando malas, a coisa ficou complicada.

Parei e pedi informações para a primeira pessoa que encontrei, uma senhora. Perguntei como fazia para ir até a rua tal, no hotel tal. Ela me olhou nos olhos, percebeu que eu era turista (o sotaque e as malas não enganaram) e logo abriu seu Iphone para ver o endereço. Passou todas as indicações e possibilidades de chegar. Era longe e eu perguntei quanto custava um taxi até lá. Ela, gentilíssima, achou que o táxi era realmente minha melhor opção. Em vez de seguir seu caminho, foi comigo até um ponto, falou com o taxista e me botou dentro do carro. Só aí foi embora. E sabe que tipo de taxi circula por toda Bilbao? Mercedes. Eu fui de Mercedes branca com bancos de couro para o hotel. Ui, me senti uma lady, uma madame em terras europeias.

Esse tipo de atitude gentil não foi uma exceção. Pedi muitas informações para muitos bilbos e todos foram extremamente polidos, simpáticos e até preocupados em me direcionar. Fiz isso várias vezes também só para testar. Sim, eles são assim mesmo. Da senhora executiva que me levou até o ponto de taxi, ao taxista e os motoristas dos Bilbobus, os ônibus que circulam pela cidade. Igual aqui, não é mesmo?

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