Jundiaqui
Jundiaqui

Diário de bordo parte 1

Jundiaqui
7 de dezembro de 2017
Como um museu pode mudar radicalmente uma cidade, conta Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Frank Gehry é louco, muito louco mesmo. Talvez não o seja hoje, porque está com quase 89 anos (a serem completados em fevereiro próximo), mas ao longo da vida deve ter embarcado em viagens alucinógenas muito além do seu tempo e espaço. É óbvio que essas palavras são uma analogia sobre a “loucura” do arquiteto canadense naturalizado norte-americano, porque só pessoas que carregam o gene da genialidade têm a capacidade de fazer o que ele fez: o projeto arquitetônico do museu Guggenheim de Bilbao, chamado carinhosamente pela população local de Guga.

O museu, plantado numa cidadezinha enfiada entre montanhas no país basco, Espanha, é um colosso arquitetônico de extraordinária beleza. Suas linhas curvas e orgânicas, suas entranhas, frestas, marquises, pontes, torres, volumes cilíndricos, linhas retas e por vezes pontiagudas parecem um transatlântico, uma baleia prateada feita de titânio, cristal e pedra calcária. Uma obra espetacular, assim como algumas das construções mais marcantes da história da Era Moderna, como a Ópera House, em Sydney, na Austrália, do dinamarquês Jorn Utzon. Como o Museu do Amanhã, assinado pelo espanhol Santiago Calatrava e que fica aqui, bem pertinho de nós, no Rio de Janeiro. E também o Guggenheim de Nova York, assinado por outro “louco de pedra”, o americano Frank Lloyd Wright, que criou um edifício igualmente vanguardista, de linhas circulares, só que muito antes de Gehry, em 1959.

Eu fui a Bilbao (Madrid e Montevideo de passagem) só por causa do Guggenheim (já conheci o de Nova York). Era um desejo antigo, desde 1997, quando foi inaugurado. A oportunidade surgiu e não hesitei. Todos que chegam ao aeroporto de Bilbo, como a cidade é chamada por seus habitantes, têm necessariamente que passar pela Puente Rosso Dell’Arco, que tangencia o Guga. A vista enche os olhos e o coração de qualquer pessoa. Para quem, como eu, ama arquitetura e design, é impossível não se excitar. A sensação de ver ao vivo aquela barcaça escamosa que muda de cor conforme o sol (isso foi previsto no projeto) é, de longe, muito melhor do que você ver o amor da sua vida. É como um filho. Mexe com suas entranhas e, depois de vê-lo, você nunca mais será o mesmo. Não é exagero. É assim mesmo, pelo menos comigo.Eu vi e pirei. Abri um olhão, soltei um palavrão e chamei Gehry de louco tresloucado logo de cara. Assim que me acomodei no hotel, localizado no extremo oposto do Guga, saí exaltada em direção ao museu, mas o caminho foi longuíssimo. Eu me espantei a cada esquina com tanta beleza. A cidade me “puxava” para um lado e para outro, para fotografar a arquitetura monumental aqui e ali, olhar “las tiendas” (lojas) de todo tipo (as de peixes são atrações à parte). As construções seculares de tirar o fôlego, as praças, o rio Nervión (se diz Ria Nerbión), que margeia toda a urbe, os bairros, como Casco Viejo, que faz parte da antiga Bilbao e data do século 14, com suas casinhas coloridas, restaurantes, igrejas, pracinhas e ateliês de artistas.

A cidade é realmente lindíssima, diferente de tudo o que já vi nas minhas andanças pela Europa. Tem uma personalidade muito particular. Une beleza, modernidade e história. O antigo convive em perfeita harmonia com o novo. Tudo isso permeado por muito verde, muitas árvores e um urbanismo de tirar o fôlego. A população me pareceu tranquila demais. A mansidão que ali reina é tanta que chega a incomodar. Todos os dias parecem feriado. Perdi a noção de tempo. Não sabia as horas e nem que dia era (não fiz conta de saber). Será mesmo que é assim ou estou em um lugar que só existe nos livros? Não, Bilbao é assim mesmo. Minúscula, muita paz, harmonia e siesta. Sim, siesta. Mais da metade de todo o comércio fecha entre meio-dia e uma da tarde e só reabre lá pelas 16h30/17 horas para ficar aberto até umas oito ou nove da noite. Cafés e restaurantes ficam abertos até bem mais tarde. Imagina se não aproveitei.

Quando finalmente cheguei ao Guggenheim estava exausta. Muita emoção, mais de 14 horas de viagem, jet leg de quatro horas para a frente, fome, sede, muita andança e muitas dores pelo corpo (sou pequena, mas 14 horas dentro de um avião não é qualquer um que aguenta. Imagine as pessoas grandes e gordas). Mesmo assim, aproveitei o cair da tarde para fotografar o Guga em todas as posições possíveis. Tive sorte, porque o dia estava frio (6 a 7 graus), mas o sol se fazia presente e o céu estava de um azul intenso lindíssimo. Um regalo para esta “viajera” maravilhada com uma cidade fabulosa. Ao lado da Puente Rosso Dell’Arco (ela é vermelha com faixas pretas e brancas por dentro e por fora) existe uma passarela, digamos assim, para pedestres. Se você seguir em frente, bem lá na frente, terá a visão quase completa do Guga. Bem no meio e no alto dos seus 110 metros o projeto é traçado de tal forma que parece uma flor. Um transatlântico escamoso como um peixe (essa é a sensação que as placas de titânio que o recobrem dão) e iridescente conforme a luz do sol. Ele pode ficar prateado, dourado, rosa, lilás ou multicolorido. Extraordinário, não me canso de dizer.Muitos criticam essas construções extremamente caras por que se tornam maior e mais importante que as obras que abrigam. Eu concordo em parte. No caso do Guggenheim Bilbao é isso mesmo, embora as coleções permanente e temporária sejam muito boas. O Guggenheim de Nova York também é um pouco assim, mas menos. Em sua coleção permanente figuram nomes como Picasso e Monet. Apesar de interessantíssimo, o Museu do Amanhã é assim. Talvez a Ópera House de Sydney, Austrália, também seja assim – ainda não conheço. Quem sabe não será meu próximo destino? Vontade não me falta.

A pergunta é: e daí? No caso do Guga de Bilbao, o próprio museu é uma obra de arte aberta para todo mundo ver sem pagar. Ao seu redor, 32 mil metros quadrados de parques, lagos, cafés, aparelhos urbanos para crianças e gente grande e obras de arte por todo lado. O urbanismo da cidade é espetacular, repito. Não são simplesmente jardins e praças. O nome daquilo tudo que vi é urbanismo planejado. Não por acaso, Bilbao recebeu o prêmio Lee Kuan Yew Workd City Prize (Prêmio Mundial das Cidades) concedido pelo estado de Singapura, que premia a qualidade do urbanismo.

Voltando ao Guga, as esculturas estão por todos os lados. As quatro mais famosas são a “Maman”, de Louise Bourgeois, a aranha de 10 metros de altura e 100 toneladas de peso que já esteve no Brasil por várias vezes. A “80 Balls”, do indiano-britânico Anish Kapoor, a “Tulips”, um buquê de tulipas que simboliza o arco-íris assinado pelo americano Jeff Koons. E, claro, o “perro” mais famoso da Espanha: Puppy, também assinado por Jeff Koons, instalado bem na porta principal do Guggenheim e que brinca com o lúdico. O cachorrinho mascote de Bilbao, um terrier, é uma escultura viva por ser recoberta de flores e, como tal, muda “seus pelos” constantemente. Enquanto estive lá, seus pelos eram de amor-perfeito multicoloridos. Muito fofo. Impossível não gostar.

MUDANÇA RADICAL - A pergunta que me ficou foi: como um museu pode mudar radicalmente o perfil de uma cidade inteira? Há 20 anos, Bilbao era uma cidade basicamente industrial, feia, suja, degradada, principalmente a área portuária. Com a construção do Guggenheim, que demorou cinco anos para ficar pronto (em 1997), a cidade mudou. O número de turistas aumentou muito (fala-se em 4 milhões de pessoas só no ano em que o museu foi inaugurado). Não sei quantos turistas recebia antes, mas o Guga trouxe muito dinheiro, cultura, gente interessada em arte e arquitetura para a cidade, ativou substancialmente os serviços e a mantém em constante evolução (em 2012, o PIB per capita era de quase 31 mil euros/ano. Hoje, deve estar beirando os 40 mil euros/ano). Muitas obras de restauração ainda estão sendo feitas. Bairros inteiros foram recuperados. A área portuária é hoje um paraíso para habitantes e turistas. Quase 88% da população empregada trabalham no setor de serviços – não é para menos.

Não estou habilitada a falar sobre a proposta de separação do lado basco com o lado catalão (que é também maravilhoso), mas não vejo muito sentido nessa atitude política, econômica e forte sentimento nacionalista. Como disse, não estou autorizada a falar sobre esse assunto por falta de conhecimento, admito.

O fato é que, com o Guga, Bilbao perdeu seu caráter marcadamente industrial para se tornar uma cidade de serviços, que está em constante processo de revitalização estética, social e econômica. A atração turística (o Guga tornou-se a alma da cidade) e a riqueza afetaram positivamente também as cidades próximas, como Murcia, Portugalete (que se pode ir de metrô e acessar a praia), San Sebastian e Santander (para onde se vai de ônibus em poucos minutos).

Como boa turista, andei muito a pé, de ônibus, metrô e muitas e muitas vezes em um ônibus elétrico espetacular, o Euskotren, mais comumente chamado de trixa (não sei se a grafia está correta) ou tranbia. São várias linhas. A que eu peguei quase todo o tempo em que estive em Bilbao foi a que vai de Atxuri a Abando Ibarra e também, claro, a Estação Guggenheim. Um detalhe importante: o Euskotren não polui, é movido a eletricidade. Um pouco mais para frente e você passa por outra paixão dos bilbos: o futebol. O estádio é todo revestido com placas losangulares preto e branco (nada a ver com o nosso Timão). Lindo. E logo em seguida se passa pelo Hospital Universitário, feito parcialmente com contêineres. Além de lindíssima, Bilbao é altamente sustentável e seu povo é educadíssimo. Construções não são destruídas (a menos que seja impossível mantê-las). São revitalizadas. As novas obras são modernas. Se possível, eles mantêm a fachada original e fazem outro edifício atrás, moderníssimo. Vi o mesmo sistema em Portugal mais de 20 anos atrás.

No Brasil, bem ao contrário, destruímos e não revitalizamos. Em Jundiaí, especialmente, porque vivo aqui, sinto dor no coração de ver construções seculares lindíssimas sendo destruídas para dar lugar a caixas de concreto sem história e nem personalidade. O Grande Hotel, por exemplo, foi abaixo para dar lugar a uma construção horrorosa que, pelo que sei, será um mini-shopping.

Nas ruas de Bilbao, o pedestre é a estrela. Carros (muito luxo) andam devagar. Normalmente cabe apenas um carro nas pistas, especialmente nas vias que margeiam o Rio Nervión.

Eu gostaria de continuar a contar minha história de amor com Bilbao. Por isso decidi escrever outro capítulo – Diário de bordo parte 2 – a ser publicado proximamente. Por ora, digo apenas o seguinte: Bilbao vale muito a pena. Se você não conhece, vá. Se não gosta de arte, não vá. Aliás, se não gosta de arte não vá à Europa.

Cláudia Bergamasco é jornalista e escritora
Jundiaqui
Você vai
gostar de

Tô zen

Por Vera Vaia

Minha morada, minha identidade

Por Wagner Ligabó

Troque tampinhas de Coca-Cola por ingresso para Expoflora

Supermercados de bairros abrem porta para a feira das flores de Holambra

Chupa que é de Uva apresenta sua Corte do Carnaval 2018

Roberta Spexoto é a rainha do bloco, que festejou ao som do Sombra e de bateria
Jundiaqui
Artigos assinados não representam a opinião do site. Esse conteúdo é de responsabilidade exclusiva de seu autor.