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A mentira

Jundiaqui
21 de abril de 2018
Por André Kondo

Não voltaria. Não queria mais ir ver a esposa. Isso se tornava cada vez mais insuportável. Não tivera tempo de realmente amar o filho, que sequer viu sair da barriga da mulher. Os pais nunca tinham dado a ele mais do que algumas migalhas de tempo. Por que voltaria ao Brasil?

Mentiras:

— Amor, vou ao Japão, trabalhar pra comprar uma casinha pra gente ser feliz com o nosso filho...

— Pai, mãe, vou ao Japão, trabalhar pra garantir o conforto de vocês quando ficarem velhinhos...

O avião alcançou o céu. O inferno ficou pra trás. Ou não? Takashi havia arranjado um emprego em uma agência ainda no Brasil, qualquer coisa em uma montadora nipônica de carros.

Ao chegar ao aeroporto de Narita, não havia ninguém para buscá-lo. Ficou parado, sem saber o que fazer. Não falava japonês, habilidade que achou desnecessária para um trabalho de peão de fábrica. Quatro horas se passaram e Takashi ainda estava plantado no saguão de desembarque. Pouco após a quinta hora, alguém se lembrou dele e apareceu. Um pedido de desculpa mal-humorado pelo pequeno atraso. Só. Toca para a fábrica.

O Japão não era aquilo que ele pensava: pontualidade e perfeição. Não há perfeição em lugar algum. Menos mal, imperfeito, já estava acostumado a atrasos, aliás, ultimamente tinha se tornado especialista nisso. No Brasil, havia atrasado o pagamento da luz, da água, do gás... E como especialista, acabou demitido já na primeira semana no Japão, ao chegar atrasado pela quinta vez (no quinto dia de trabalho). Não estava nem aí pra nada.

Sentiu fome. Roubou comida. Foi preso.

Na cadeia, tudo era muito limpo. Tudo muito silencioso. Havia livros para ler, mas só em japonês. Não se importou com esse detalhe. Emprestava alguns volumes e ficava “lendo” a própria incompreensão. Durante uma leitura vazia, foi interrompido por um brasileiro de Rondônia, que revelou que havia ido ao Japão com o sonho de comprar uma casa pra viver com esposa e filho, garantir uma vida melhor para os pais... Só havia uma diferença entre o plano de Takashi e o do rondoniense, o último realmente acreditava que faria tudo isso.

Se Takashi tivesse prestado atenção em toda a história, se não tivesse parado de escutar quando o rondoniense disse que queria ganhar dinheiro para esposa, filho, pais, talvez compreendesse por que o cara amanheceu no dia seguinte pendurado na cela, com a calça enrolada, como corda no pescoço. Takashi não sabia, mas o rondoniense havia pisado na bola. Perdeu o emprego por ter ido trabalhar embriagado. Ficou sem dinheiro até para voltar para casa. Embriagou-se ainda mais. Tentou cumprir a promessa de dar uma vida melhor à esposa, ao filho e aos pais, da pior maneira, pela via do crime. Pegou pesado. Pegou perpétua. Como poderia cumprir a promessa? Não podia.

Takashi saiu da prisão no mesmo dia do rondoniense. Um em um saco, outro com as próprias pernas. Na rua, em frente à prisão, Takashi ainda acompanhava o corpo do ex-colega, que foi colocado em uma van branca, com algumas palavras em japonês em vermelho. O cara que carregou o corpo era peruano e trabalhava na funerária. Se Takashi soubesse ler, saberia disso. Falaram-se em portunhol. O peruano perguntou o que Takashi iria fazer agora em liberdade e recebeu um não sei como resposta. A funerária precisava de alguém vivo. Por que não? Takashi foi contratado, como limpador de cadáveres. Não havia muita competição para a vaga.

O primeiro cliente foi o rondoniense, às custas do governo. O peruano encontrou uma carta no bolso da camisa do morto. Amassou e a jogou no lixo. “Não vai ler a carta?”, Takashi perguntou. O peruano respondeu que não, porque não queria carregar o morto além do forno de cremação.

Dois dias depois, no segundo cliente, Takashi levou um susto. Não era pelo fato de se defrontar com um cadáver, nem por medo de fantasma. O que o assustou foi ter visto no morto o rosto do pai. Cuidou do corpo com extremo profissionalismo, seguindo as instruções do peruano, que lhe ensinou muito bem o ofício. Não sabia quem era o dono da funerária, só conhecia o peruano. De qualquer forma, o salário era pago religiosamente, e era só isso o que importava.

Poucas semanas depois, o peruano foi embora, estava apenas esperando por um substituto. “Não queria abandonar os mortos, deixá-los sozinhos, sem ninguém”, disse o peruano na despedida. Takashi ficou com os mortos, no turno da noite. Sozinho. Não se importava com isso. A única coisa que o incomodava era a estranha sensação de ver o rosto do pai, da mãe, da esposa... nas faces de cada uma das pessoas mortas. Seria saudade?

Após dois anos, já tinha conseguido guardar um dinheiro considerável. Dava para uma boa casa, algum conforto para os... Mas não pensava em voltar. Para quê? Até que, certa noite, um bebê apareceu. Se tivesse conhecido o filho, reconheceria o mesmo rosto naquela criancinha gelada?

Nunca havia hesitado em preparar um corpo para o funeral. Trabalhava com destreza, friamente limpando as impurezas do corpo, purificando o que havia restado para a saudade levar. Mas, aquele bebê...

Takashi lavou o pequenino corpo com lágrimas. Lembrou-se da promessa. Era hora de cumprí-la. Voltou ao Brasil.

***

Takashi limpou primeiro o túmulo dos pais, que haviam morrido quando ele ainda era criança. Passaram tão pouco tempo juntos, mas os amava. No mesmo cemitério, procurou rever a esposa, cuja dupla lápide indicava também o nome do filho, que nunca teve a chance de pronunciar.

Takashi entregou flores à amada, um brinquedo japonês de pelúcia para o filho. Depois, tirou do bolso uma carta amassada... E partiu para Rondônia.

Conto publicado na revista Nikkei Bungaku n.º 49 (março/2015). Prêmio Yoshio Takemoto 2014. Vencedor do Concurso Nacional de Contos de Ponta Grossa 2014 (ex aequo). Vencedor do Troféu do Mapa Cultural Paulista 2014/2015 (ex aequo).
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