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Dona Gemma

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4 de setembro de 2017
Por Nelson Manzatto

Para explicar o movimento de rotação, a professora, dona Gemma, reuniu alguns alunos na frente do quadro negro, colocou um no meio da roda e os outros girando ao redor dele. Era uma explicação simples, sem pesquisas em livros. Quando a aula terminou, os alunos deixam a sala de aula indo para casa e comentando no caminho a facilidade da explicação. Todos tinham entendido.

Em casa, os alunos comentavam com os pais e se mostravam felizes com que dona Gemma dizia.

No outro dia, alguns alunos – pois na década de 1950, as classes não eram mistas, ou seja, meninas não se misturavam com meninos – levavam flores ou Sonho de Valsa – único tipo de bombom existente na época – para a professora.

Ela se sentia envaidecida, mas os que não levaram acabaram chamando os outros de “puxa sacos”. E aí, bem aí a professora não chamou nenhum grupo na frente para explicar a situação. Para ela, o mais importante era o aprendizado.

Para alunos do terceiro ano primário entenderem o significado do movimento de rotação era mais importante do que flores e bombons. Mas servia para mostrar o reconhecimento dos pais ao ensinamento dado na sala de aula.

A gente via no semblante da professora a satisfação do dever cumprido. E a reação de todos a levou às lágrimas, pois quando terminou de falar, os alunos, sem combinar, mas por instinto inexplicável, se puseram de pé e aplaudiram a mestra.

O Grupo Escolar Paulo Mendes Silva, na rua General Carneiro, esquina com a rua Fernando Arens, funcionava com alunos em três horários: das 8 às 11, das 11 às 14 e das 14 às 17 horas. E isso, de segunda a sábado.

Por conta do grande número de alunos, uma classe funcionava em outro local: na rua Moreira César, num pequeno salão, próximo à farmácia do Arquimedes. E neste ano, a minha turma tinha aula neste prédio: um pequeno salão, com cerca de 30 carteiras duplas, abrigando os alunos.

Sentíamos isolados e sempre que terminava a aula, os garotos subiam até o prédio principal apenas para rever colegas que haviam mudado de classe ou apreciar as meninas que entravam e saiam do prédio. Carrinhos de pipoca, de raspadinha ou de biju nunca desciam a Moreira César para satisfazer um grupo de alunos. Por isso – e este também é outro motivo – nos levava até o prédio central da escola.

Lembrar de lágrimas de professoras significa perceber a sensibilidade das mesmas. Nem sempre havia vaso de flores sobre a mesa das professoras, até porque saía uma e entrava outra. Quando o sinal tocava para uma turma sair, a outra já estava no pátio pronta para seguir o caminho das salas de aula. E a gente via a professora saindo com o vaso com meia dúzia de flores. Feliz por ter certeza de que tinha cumprido seu dever: o de ensinar e educar as crianças...

Os bombons, curiosamente, Dona Gemma repassava para alguns alunos que se destacavam durante a aula.

Nelson Manzatto é jornalista
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