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Fachada da Fábrica Japy passa por processo de restauro

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14 de maio de 2019
Por José Arnaldo de Oliveira

Uma boa notícia para Jundiahy, com seus quase 400 anos de história, surgiu agora com trabalhadores envolvidos em cuidados de manutenção da fachada lateral da antiga Fábrica de Tecidos Japy, na Vila Arens. É a parte que restou do conjunto, colocado no meio de uma polêmica há mais de sete anos.

Aberta em 1913, a fábrica foi construída na primeira década do século XX e pertenceu ao senador Lacerda Franco – que hoje empresta o nome para a rua onde está localizada. Foi parte do setor industrial que tornou a cidade uma potência cerâmica, têxtil, metalúrgica, alimentícia e ferroviária que até as décadas de 1970 e 1980 se espalhava pela Vila Arens, Ponte São João e outros bairros centrais. Na memória urbana mais recente, foi depois ocupada por supermercados como o Disco.

A fachada, assim como uma chaminé atualmente pichada, são remanescentes dessa história – e são partes pequenas da área. Apesar do desprezo de alguns extremistas do “tudo ou nada”, é um elemento magnífico na paisagem e na história da cidade apesar da demolição do restante.

Em 2012, a conservação dessas partes era cogitada com base precedente do edifício Espaço e Vida, da rua Joaquim Nabuco, onde o projeto tocado pela Santa Ângela, Brookfield e Torrear havia mantido a fachada histórica de tijolos da Companhia de Fiação e Tecelagem Nami Aizem, de 1928. A empresa havia chegado a 600 trabalhadores e funcionara até a década de 1970 produzindo fios e sacarias de algodão.

Mas a discussão, como registrei na época para o jornal "Bom Dia" Jundiaí, foi duríssima no Conselho Municipal do Patrimônio (Compac). O projeto para a Fábrica Japy do Rezidenciale Fontana, da PDG Goldfarb, não foi aprovado por recurso de moradores ao Conselho Estadual do Patrimônio (Condephaat) – que havia acabado de aprovar o tombamento da vizinha Estação Ferroviária da São Paulo Railway, de 1867.

Mas, mais ou menos na mesma época, descobri ao espiar os tapumes de uma obra na rua do Rosário que havia ali uma parede de taipa – um sinal de riqueza arquitetônica ainda colonial. Com apoio da fotógrafa Tati Silvestroni e do arquiteto Eduardo Carlos Pereira, o alerta na imprensa serviu para a reformulação e aprovação do projeto que deu origem à loja Habitare, atualmente Lojas 100, com altura harmonizada com a antiga Câmara e Fórum na rua Barão e preservando nos fundos uma fachada do final do século XVIII ou início o século XIX na rua do Rosário. E foi aprovado.

É possível harmonizar o interesse público e a livre iniciativa, mas precisa haver o ponto de equilíbrio.

Em Portugal, as mudanças são praticamente liberadas em Lisboa desde que se preservem a fachada e os telhados vermelhos em imóveis que não estejam bem cuidados. Por aqui, as restrições muitas vezes geram demolições quase criminosas como da pioneira Fábrica São Bento e casarões centenários – que deu lugar aos grandes prédios na avenida Dr. Olavo Guimarães, perto do caso em foco aqui.

Os conselhos devem ser espaços importantes de diálogo. Mesmo sendo uma das cidades mais antigas do Estado de São Paulo (e do Brasil), Jundiahy demorou a estruturar o seu conselho – embora o debate tenha sido iniciado na década de 1980 por nomes como Ariosto Mila, Geraldo Tomanik, Washington Simões ou Francisco “Kiko” de Matheo. E ainda poucos dos quase 200 tópicos do IPPAC - Inventário do Patrimônio tenham sido tombados de fato.

Não é isso, entretanto, o mais importante. Foram jovens dos anos 1970 que salvaram de loteamentos a biodiversidade da Serra do Japi com suas passeatas, foram moradores nos anos 1980 que pressionaram a restauração do Teatro Polytheama com suas camisetas. É gente do Caxambu que preservou a árvore no meio da avenida, é gente de todos os cantos da cidade que conserva ou reinventa lugares, tradições, histórias, casas ou vilas.

A ficha técnica da Fábrica Japy no IPPAC aponta elementos físicos como a antiga calçada em tijolo, a platibanda (parte que oculta o telhado, muito usada durante longo tempo na cidade) com pilaretes e cinalha, alvenaria autoportante com tijolos de barro maciços. Poderia ser dito que faltam dados sociológicos e urbanos, como a localização em uma rua onde pouco adiante existe uma pequena praça no lugar conhecido como “largo da feira”.

Mas isso já seria outro assunto, no campo da memória social que considero tão importante como o olhar arquitetônico ou historiográfico e com que colaborei em processos como os citados antes ou da Ponte Torta, de 1888, ou, atualmente, da campanha pela Estação Jundiahy-Paulista (Estaçãozinha), de 1898.

Mas também presente está nesse caso, como poderiam dizer moradores que viveram na Vila Japi, situada entre a Vila Arens e a Vila Progresso, com provável ligação com essa história. A chaminé, como muitas outras, é protegida por lei do ex-vereador Rolando Giarola desde os anos 1970 (embora precisem de atenção).

O momento, entretanto, é de esperança. Ainda não sei qual é o investimento em curso no local da antiga Fábrica Japy, e isso cabe a autoridades e mídias confirmarem. Mas os cuidados com a fachada lateral histórica indicam um aspecto positivo no momento.

Fotos: Sandra Nereida Crepaldi/reprodução Facebook. Ficha do imóvel: Ippac
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