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Gervásio e o gambá

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20 de novembro de 2017
O bicho homem invade a casa do bicho e o bicho é que toma no rabo, conta Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

A rua estava um pandemônio. Um caminhão do Corpo de Bombeiros chegou fazendo alarde com aquele apito ensurdecedor. Parou em frente à casa de Gervásio. A vizinhança toda veio saber o que acontecia. Incêndio? Não. Alguém morto? Não. Vou contar o que houve.

- Vai Gervásio, pega ele! Taí, taí do seu lado!

- Onde?

- Vai, homem de Deus!

- Não tô vendo, Venâncio... onde??

- Ahhhh, ele fugiu. De novo, Gervásio, ele fugiu de novo! Puta que o pastel!

A gente vai ter que passar outra noite aqui?

Gervásio, Venâncio e Capitão, um cão vira-latas com pelos pretos brilhantes como uma lontra, focinho e patas brancas, estavam de tocaia havia cinco madrugadas para pegar uma família de gambás que fizera moradia na casa de Gervásio. Eram até bonitinhos: um pequenino e cor de rosa, outro maiorzinho, pelos acinzentados, e outro maior, pelos pretos e eriçados como os de um porco-espinho. Todos com rabos compridos, finos e pelados. Bonitinhos podiam ser, mas deixavam Gervásio fora do sério.

- Esses bichos são um inferno, Venâncio. Isso aí é saruê, igual deu lá na casa do Hipólito. É gambá de orelha preta.

- É, pode ser, mas o cheiro é o mesmo.

Gervásio estava injuriado. Os bichos estavam acabando com sua pequena criação de galinhas (incluindo os ovos), sua plantação de frutas (morangos, principalmente) e destruindo o jardim do qual ele tanto gostava e cuidava com apreço. Todo dia de manhã a visão era a mesma: plantas e flores pisoteadas, frutas comidas, lixo revirado, pintinhos mortos, penas e cascas de ovos para todo lado, sem contar os montes de bolinhas de coco e o cheiro insuportável do xixi. O local era bem aberto, mas mesmo assim, o odor fedorento pairava forte no ar.

Ele já pensara até em usar sua espingardinha de chumbo, mas seu coração era de manteiga. Amava e respeitava os bichos e a natureza. Nunca mataria bicho nenhum. Então, pediu ajuda para os bombeiros, para a guarda florestal, para o pessoal da mata ciliar, para a prefeitura, para o Ibama da cidade. A resposta era sempre a mesma: “nós não caçamos, só vamos buscar.” O que significava que ele mesmo teria que capturar a família de saruês que invadiu sua casa.

Gervásio não conseguiu. Chamou as autoridades e contou de novo o que estava acontecendo. Ninguém se dispôs a caçar os marsupiais. Só ir buscar depois de encarcerados. Então, chamou seu amigo Venâncio, que se dispôs de pronto a ajudar.

Com Capitão atento e cheio de energia, traçaram um projeto para catar os bichos sem matá-los. Gervásio e Capitão ficariam escondidos perto do galinheiro e, Venâncio, do outro lado do terreno, não muito longe dali, embaixo de um velho flamboaiã. Deveriam ficar em silêncio sepulcral – Capitão parecia entender tudo direitinho o que estava acontecendo. Para se comunicarem, combinaram de jogar uma pedra. Quem visse os saruês primeiro atiraria uma pedra perto do amigo. Tudo acertado, luvas grossas nas mãos, botas altas nos pés, boné e colete de frio cheio de bolsos. Cada um em seu posto. Na primeira noite, nada. Três horas da manhã e nada de os gambás aparecerem. Às quatro, levantaram suas âncoras.

Em casa, depois de um cochilo no sofá coberto com tecido já bem gasto, Gervásio foi fazer um café e viu pela janela da cozinha um ovo vazio, um pintinho morto e a mata pisoteada.

- Venâncio! Acorda, homem! Os bichos atacaram de novo.

- O quê? Mas que audácia!, disse coçando os olhos. Capitão começou a latir.

- Eles sabiam da gente. Esses nojentinhos são espertos demais.

- Liga não, Gervásio. A gente fica de tocaria de novo e cata os três.

Como dito, naquela noite os amigos junto com o leal, fiel e energético Capitão voltaram para o quartel general. Desta vez, levaram pinga e espalharam pela área vários potinhos plásticos com a mardita. Puseram ovos em alguns potes. Noite enluarada, céu estrelado, frio típico das madrugadas de abril, Gervásio e Venâncio adormeceram, cansados que estavam das noites noite anteriores. Acordaram com o sereno gelado do amanhecer. Capitão, sempre alerta, dormitava, mas se mantinha atendo a qualquer barulho.

- Caramba! Gerrrváááásioooo, acorda homem.

Assustado, Gervásio limpou a baba e disse:

- Que foi, que foi? Ahhhh, não! De novo? Capitão!! Você não fez nada?, disse o dono ao cão que o olhava abanando o rabo. Vez por outra, arreganhava os lábios mostrando os dentes como se estivesse sorrindo, escarnecendo o dono.

Na terceira e na quarta noite eles ficaram mais atentos, mas os gambás eram realmente muito mais espertos que os “caçadores”.

- Assim não dá, Venâncio. A gente está sendo enganado por três bichinhos de nada. Focinhos cor e rosa, mas são ágeis, escapam fácil, fácil. Não dão mole, não.

- Enquanto isso, comem os pintinhos na nossa cara. Trapaceiros!

- É, Venâncio, eles estão aqui por um motivo.

- Ah, é, Gervásio? Você sabe por que eles estão aqui?

- Claro. Você não viu o desmatamento que está na redondeza? Viu que lá no alto daquela serra os caminhões estão abrindo estradas? Vai sair um condomínio de novo, desses de luxo, para gente endinheirada. Viu que na casa da dona Jacinta apareceu esquilos? Lá deve ter gambá também. Só que ela nunca reclamou para ninguém. Por aqui também já vi uns pássaros que só vivem na mata fechada. E o Capitão quase pegou um macaco bugio. Por sorte, eles são velozes e escapou pelas árvores.

- É, Gervásio, tem razão. O homem está mexendo com a casa dos bichos, com a natureza. Está mexendo demais. Isso não vai dar certo.

- Pois é, aí dá nisso. Eles vêm buscar abrigo e comida aqui na casa da gente, que mora perto da mata.

- E o que nós vamos fazer?

- Sei não. Se eles não comessem minhas criações eu até adotava. Mas tem esse cheiro. Outro dia a Maria Estáquia veio tomar café comigo e eu morri de vergonha.

- A Mariazinha, é?

- Ela mesmo. Você sabe que sou doido por ela.

- Mas, Gervásio, diz que a Mariazinha gosta mesmo é do Arquibaldo Surupião, aquele que tem uma fazenda.

- Para com isso, Venâncio. Assim você acaba com o fio de esperança que tenho de casar com ela.

- Hiiiiii, a coisa tá assim, é?

- Para de falar da Mariazinha. Eu tenho um plano para encurralar esses gambás. Presta atenção. Vamos fazer uma armadilha. Eu não quero mais ver meus pintinhos e minhas galinhas mortos, nem passarinho, nem minhas frutas nem nada. Desta vez, a gente acerta as contas com eles, você vai ver.

- E qual é o plano?

- Gaiolas com comidas que eles gostam.

- Viche, Gervásio, a gente vai ter que esse construir umas três, porque por aqui não tem para vender. Eu fui na venda do Adamastor e só vi espingarda de chumbinho.

- Tá louco? Você acha que eu vou atirar nessas criaturas? Só quero que elas saiam da minha casa. Vai que eu dou sorte e os gambás vão os para a casa da Mariazinha. Aí estou feito. Cato os gambás e viro o herói dela.

- Ihhh, tá delirando homem?

- Quer saber, vamos logo construir as arapucas. A gente põe comida fresca de noite e chama os bombeiros para levar os bichos de volta para a mata.

E lá foram de novo Gervásio, Venâncio e Capitão para o quintal da casa, que era parte da serra, sem cerca em nenhum dos lados. Madrugada alta ouviu-se um barulho de mato. Gervásio jogou uma pedra perto de Venâncio e Capitão logo se achegou ao dono. Tinha na boca o saruezinho rosa. Jogou ao dono feliz como se fosse um troféu.

- Capitão!! Venâncio saiu do esconderijo e viu a cena. Gervásio estava fulo com seu cão, mas deixou transparecer sua satisfação. O gambazinho estava vivo, tremendo de medo. Gervásio o pegou com suas grossas luvas e viu que dentro da gaiola estavam pai e mãe.

- Aí, Venâncio, olha eles aí.

- Carambola! São grandes!

Gervásio abriu uma das gaiolas e colocou o saruezinho com cuidado dentro dela. Fechou a portinhola com um pedaço de arame e fez o mesmo na outra. Juntaram as duas num local mais aberto e prenderam Capitão dentro de casa.

- Venâncio, achei que não íamos conseguir. Não fosse o Capitão, a gente teria deixado passar de novo.

- Imagina, os bichos já tinham entrado na gaiola. E agora, o que vamos fazer?

O apito dos bombeiros soou agudo e a vizinhança saiu de suas casas. Nesse momento, uma das vizinhas, a dona Jacinta, que tinha fama de mesquinha e desalmada com qualquer animal, viu os bichos e gritou. Entrou em casa, pegou sua espingarda e, dois segundos depois, mandou chumbo neles. Certeiros. Os três morreram na hora. Houve correria, gritaria, xingamentos, choros e gente querendo linchar a velha, que julgou perigosíssimos os gambás que ela “confundiu” com ratazanas. Os bombeiros tiveram que intervir. Gervásio olhou para Venâncio e começou a chorar vendo os gambazinhos mortos.

- Venâncio... Venâncio... olha, Venâncio, olha... o que aquela bruxa fez, Venâncio, o que ela fez!

- Gervásio...

Os amigos se abraçaram enquanto a velha viúva Jacinta era questionada pela Polícia, que alguém chamou e chegou muito rápido. Capitão latia sem parar dentro de casa. A vizinha foi interrogada e detida.

O quintal de Gervásio nunca mais fora o mesmo. Até Capitão, com sua incrível energia e alegria, tornou-se mais quieto. Aquela família de gambás foi enterrada no quintal e, em cima da cova, Gervásio montou um galinheiro novo. E chamou Mariazinha para ver.

Cláudia Bergamasco é escritora



 
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