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Minuto de Silêncio: Papai Noel da ‘barba da hora’ agora é só saudade

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1 de dezembro de 2019
Jundiaí se despede de Washington Borges, o Borjão, que foi embora muito cedo, aos 52 anos

Edu Cerioni

Em dezembro de 2009, crianças de uma escola municipal fizeram uma divertida sabatina com o Papai Noel. Washington Borges, o Borjão, respondeu sobre tudo e a todos, um dia marcante em minha vida como mediador do encontro e aposto que também na dele e das crianças envolvidas nessa brincadeira que fiz pelo extindo Jornal "Bom Dia". Vejo agora que Borjão faleceu neste sábado (30), uma despedida discreta. Ele merece mais, deve ser lembrado como nome de rua e eternizado como o Papai Noel da "barba da hora", como uma criança o definiu dez anos atrás.

Borjão deixa esposa e filhos e uma legião de fãs que o viram por anos seguidos como o Papai Noel do Russi, do Maxi Shopping, da ACE, BM Motos, do Jardim Botânico em parceria com a Coca-Cola, enfim, em muitos lugares. Foram 23 anos conservando barba e cabelos longos e brancos para iluminar o Natal de Jundiaí.

Essa escolha teve um forte motivo: levou um tiro, daqueles de bala perdida em Campo Limpo Paulista décadas atrás e precisou mudar sua vida. Foi aí que leu um anúncio de jornal pedindo Papai Noel e se jogou de cabeça nessa fantasia.

Os últimos anos não foram nada tranquilos por conta de problemas de saúde. Até vaquinha rolou na internet para ajudar a custear medicamentos. O adeus foi no sábado de tarde, antes de entrar dezembro, tempo em que se transformava na figura mais querida da criançada.

‘Barba da hora’

Aqui, reproduzo um depoimento da jornalista Graziela Delalibera que me acompanhou na sabatina de 2009:

"Passei uma agradável manhã, apesar do calor intenso, na escola municipal Ruth Carturann, em Jundiaí, onde o Papai Noel Washington Borges, 42, o Borjão, foi sabatinado por crianças de 5 a 7 anos. O encontro foi intermediado pelo editor-chefe do BOM DIA Jundiaí, Edu Cerioni. Me emocionei em alguns momentos com as crianças, e no final, com o altruísmo de Borjão, que narrou um pouco de sua rotina neste final de ano. Aqui a reportagem publicada pelo jornal:

Pendurado na perna de Papai Noel, ele sorria sem parar. Não desgrudava do visitante e dava impressão de que nem conseguia respirar. Atarracado ao homem de barba branca, óculos de grau e vestes vermelhas, com gorro, o semblante do menino era de satisfação.

Era a hora de fazer pose para foto e, embora todos os alunos do período matutino da Escola Municipal de Educação Básica Ruth Carturann Wiemann, no Jardim Tarumã, estivessem ao lado do bom-velhinho, era só aquele menino que eu conseguia enxergar.

Cabelo raspado nas laterais, ele lembrava um carrapatinho grudado ao Papai Noel. “Agora eu te peguei. Você não me escapa.” Imaginei o que o garoto estaria pensando naquele momento. “Falem batatinha”, pediu Julio Montheiro, o repórter fotográfico que me acompanhava. O menino riu, gritou batatinha. Papai Noel gostou da brincadeira, repetiu várias vezes com as crianças, intercalando com alguns ho, ho, ho.

Quando o retrato foi desmanchado e os alunos deixaram o convidado respirar, não pensei duas vezes. Queria saber o nome daquela figurinha que tinha grudado no barbudo. Orgulhoso, Claudemir Victor Ávila Cassiano, 7 anos, me contou que conseguiu passar a mão na barba do Papai Noel Borjão. “É dá hora”, garantiu.

Alguns minutos antes, outro aluno da escola, Guthisson Henrique Gonçalves Andrade, 6, tinha despertado em mim o mesmo sentimento. As crianças de sua sala haviam sido surpreendidas pela chegada do Papai Noel, que convidava a turma para sair ao pátio, onde ele receberia uma homenagem e, depois, seria sabatinado pelos alunos. Primeiro da fila, Guthisson deu dois cutucões na barriga farta do Papai Noel. “Será que ele está checando se o homem é mesmo de verdade?”, pensei.

O fato é que a manhã foi mágica na escola Ruth Carturann. Depois de entrar em cada uma das salas, Papai Noel se acomodou numa cadeira embaixo de um ventilador no pátio da escola e dispensou às crianças toda a atenção que elas merecem.

Antes das perguntas, os alunos cantaram “Feliz Seja o Seu Natal”, “Bate o Sino”, “Os Anjinhos” e “Sapatinho na Janela”. Quem viu o encantamento que Washington Borges, 42, o Papai Noel que comanda a festa do Natal do Sonhos no Centro (organizada pela ACE, Associação Comercial e Empresarial), teve com a recepção, dificilmente imagina que ele faz isso há 15 anos. “É uma satisfação muito grande.”

“Eu ia trazer meu bugnoel, mas aqui não tem lugar para estacionar”, se justificou Borjão, logo ao encontrar a reportagem na manhã quente de quarta-feira num corredor da escola Ruth Carturann. Com a agenda lotada nesse mês de dezembro, mas com o coração imenso, ele arrumou um horário e vai retornar à escola e fazer a entrega dos presentes.

Desde quinta-feira, esse Papai Noel faz três eventos por dia, e ainda alia à sua rotina trabalhos sociais, visitando orfanatos e escolas. Todo Dia de Natal, ele passa com crianças carentes e tem um ritual que cumpre há pelo menos dez anos. “Sempre às 18h do dia 25 tiro toda a barba e deixo crescer durante o ano todo”, explica. “Brinco com minha esposa, que eu começo o ano mocinho, viro lobisomem e depois me transformo no bom-velhinho”, fala.

Pergunto sobre como essa história começou. Ele hesita um pouco e comenta que não gosta de falar no assunto. “Era uma época difícil na minha vida. Tinha uma vaga de Papai Noel no Maxi Shopping, resolvi arriscar e deu certo.”

Foto: Julio Montheiro
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