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Monteiro Lobato também era pintor

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5 de junho de 2019
Luiz Haroldo Gomes de Soutello


Quando a Academia Jundiaiense de Letras abriu as inscrições para os acadêmicos que desejassem ocupar a tribuna ema sessão solene para homenagem ao escritor José Bento Monteiro Lobato, inscrevi-me para dizer alguma coisa a respeito dele como pintor, acreditando que esse tema causaria um frisson no seleto auditório, pelo inusitado da abordagem. O ás que eu supunha ter na manga era uma aquarela pintada por Monteiro Lobato, aquarela que eu conheço, há mais de meio século, em poder da família Macedo Soares.

O tema foi aceito pela AJL e pus mãos à obra, contatando a Professora Maria Emília de Macedo Soares para pedir uma foto do quadro e indagar a respeito da origem dele. Essa super amiga não questionou o meu entusiasmo por aquela aquarela, que eu supunha fosse talvez a única incursão de Monteiro Lobato no terreno das artes plásticas, ou pelo menos uma entre muito poucas. Com a costumeira sutileza, Maria Emília apenas ofereceu emprestar-me o livro “Juca e Joyce”. Trata-se de uma longa entrevista concedida a Márcia Camargos por uma neta de Monteiro Lobato, Joyce, a respeito do convívio que teve com o avô Juca. Sim, o nosso homenageado era conhecido em família como Juca. E a neta Joyce conta que ele pintou muito ao longo da vida. Ao editar o livro, Márcia Camargos ilustrou-o com um bom número de pinturas de Monteiro Lobato.

E lá se foi pelo ralo a suposta originalidade do meu tema. Quase desisti de abordá-lo aqui. Mas, pensando melhor, aquela não é uma aquarela qualquer de Monteiro Lobato. É uma aquarela que tem história, e tem uma história que serve de gancho para dizer alguma coisa a respeito da família de Monteiro Lobato.A aquarela, cuja foto circulou pelo seleto auditório, foi um presente de Monteiro Lobato ao casal Alcântara Machado. Estou me referindo ao primeiro Alcântara Machado, por extenso José de Alcântara Machado de Oliveira, que sucedeu o pai Brasílio Machado, por extenso Brasílio Augusto Machado de Oliveira, na Cadeira nº 1 da Academia Paulista de Letras, cadeira que tem como patrono o Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira, autor de um precioso “Quadro Histórico da Província de São Paulo”. Alcântara Machado foi também da Academia Brasileira de Letras, onde, no discurso de posse, proferiu a famosa frase “paulista eu sou, há quatrocentos anos”, que deu origem ao adjetivo coloquial “quatrocentão” para predicar pessoas de família muito antiga.

A aquarela de Monteiro Lobato foi herdada por Dona Teresa Maria de Macedo Soares, nascida Alcântara Machado, casada com José Eduardo de Macedo Soares, cujo tio José Carlos de Macedo Soares também ocupou a Cadeira nº 1 da Academia Paulista de Letras, como sucessor de Alcântara Machado, e também foi da Academia Brasileira de Letras. Acrescente-se que Dona Teresa era irmã do escritor António de Alcântara Machado, hoje o mais lido entre os daquela família de escritores. Atualmente, como já dito, a aquarela pertence à Professora Maria Emília de Macedo Soares, que herdou também o nome de batismo da avó materna, a Sra. Alcântara Machado, em solteira Maria Emília de Castilho.

Inquirindo a origem da amizade de Monteiro Lobato com o casal Alcântara Machado, fiquei sabendo que Dona Maria Emília nasceu em um distrito de Taubaté chamado Tremembé, convertido em município em 1896. E Monteiro Lobato, sempre descrito nas biografias apenas como sendo de Taubaté, era mais especificamente de Tremembé. Não apenas era de Tremembé, era neto materno do Visconde de Tremembé, José Francisco Monteiro, dono de uma vasta biblioteca, e que inspirou a figura erudita do personagem Visconde de Sabugosa. Na diminuta sociedade polida de Tremembé nos anos oitenta do século XIX, era inevitável que houvesse estreitas relações sociais entre os Castilho, os Monteiro e os Lobato.

O que acaba de ser dito já sugere que o nome composto Monteiro Lobato vem do casamento de Dona Olímpia Augusta Monteiro, filha do Visconde de Tremembé, com José Bento Marcondes Lobato. E aqui cabe mencionar uma curiosidade. Ao nascer, o futuro autor do Sítio do Pica-pau Amarelo recebeu o nome de José Renato Monteiro Lobato, nome que usou até os dezesseis anos, quando morreu o pai, em 1898. Entre os objetos pessoais do pai que ficaram para o jovem José Renato, havia uma bengala em cujo castão estavam gravadas as letras JBML, iniciais de José Bento Marcondes Lobato. Para adaptar o próprio nome às iniciais gravadas nessa bengala, à qual ele era muito apegado, José Renato passou a usar o nome José Bento Monteiro Lobato.

Parece provável, a julgar pela entrevista da neta Joyce, que a paisagem retratada na aquarela que serviu de excipiente a esta conversa seja da Fazenda Buquira, que Monteiro Lobato herdou do Visconde de Tremembé, e na qual morou alguns anos. Mas também pode ser de uma chácara que aquele avô possuía em Taubaté, e que por causa dele ficou conhecida como a Chácara do Visconde. Ambas serviram de inspiração para o Sítio do Pica-pau Amarelo, então podemos dizer, sem medo de errar, que essa paisagem é parte do cenário ficcional habitado por Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Anastácia, o Visconde de Sabugosa, a boneca Emília e o Marquês de Rabicó.

É o que eu tinha a contar.

Luiz Haroldo Gomes de Soutello é advogado e escritor

 
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