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O coroinha do bispo

Jundiaqui
10 de abril de 2018
Por Nelson Manzatto

Quem entra na igreja de Vila Arens hoje não imagina que todos os altares ali existentes foram utilizados para celebrações de missa e, durante a semana, todas ao mesmo tempo.

Me lembro que as intenções eram individuais, ou seja: cada missa deveria ser celebrada para um falecido e em altares diferentes.

Na década de 1960, quando eu era coroinha, as missas ocorriam às 6h30 e 7 horas e três ou quatro ao mesmo tempo.

Como as celebrações eram em latim, já que o Concílio Vaticano II que decidiu que os fiéis deveriam participar orando junto com o padre durante a missa só ocorreu anos mais tarde, as orações eram em voz baixa, acompanhada apenas pelo coroinha que, com uma folha impressa em latim, respondia de acordo com as palavras do padre.

Padre Alberto celebrava no altar principal, padre Hugo, às vezes na capela do Santíssimo, tinha ainda padres Dionísio e Gabriel ou até mesmo Gervásio ou Ditmar, que faziam as celebrações nos altares do Sagrado Coração de Jesus – em frente à sacristia – e Nossa Senhora de Fátima – em frente à capela do Santíssimo.

No altar principal ou altar mór, havia sempre a celebração de sétimo dia. Um pano preto com uma cruz desenhada, aberto no chão, mostrava que ali a missa era de falecido recente. Ao final da celebração, os participantes apanhavam água benta e benziam o pano aberto. Fazia-se fila para isso.

O padre celebrante abria a bênção, seguido pelos parentes e amigos do falecido. Distribuía-se, então, santinhos com a foto do falecido e, na maioria das vezes, com a oração de São Francisco.

Achava interessante ver tantas missas celebradas ao mesmo tempo.

Nas primeiras sextas-feiras, as missas ocorriam nos altares laterais, já que no principal, a cada dez minutos, o padre vinha distribuir comunhão. As pessoas comungavam e voltavam para o banco para acompanhar o restante da missa que participava.

Primeira sexta-feira era sinônimo de igreja cheia. Sempre! Muita gente que não podia participar, por causa do trabalho, comungava e depois ia embora. E foi num dia desses que chegou um bispo para celebrar. Sabia que era um bispo, pois usava um solidéu – um pequeno barrete usado na cabeça, parecido com uma boina. O sacristão me olhou e fez sinal para ser o coroinha desta missa...

Vesti a túnica preta – para celebrações para falecidos – uma veste branca por cima e acompanhei o bispo. Nunca tinha visto um na minha vida assim... tão de perto. Isto porque Jundiaí não era diocese e fui crismado com dois anos, pois dependia da vinda do bispo para este sacramento.Terminada a celebração, o bispo passou a mão na minha cabeça, “obrigado menino” disse ele e foi embora. Fiquei olhando ele se afastar da igreja, quando o sacristão me abordou, perguntando se sabia quem ele era. Fiz que sim com a cabeça, mas disse que não sabia o nome. Foi então que conheci Dom Agnelo Rossi, filho do velho foieiro, que era bispo de Campinas, passando dias na casa do pai e do irmão que moravam na rua Moreira César, ali perto da Igreja.

Só em casa, ao comentar com minha mãe o que acontecera que senti o coração bater mais forte, pois percebi que ela se emocionara com meu feito.

Claro que nunca mais cruzei com ele na sacristia da igreja de Vila Arens nem no dia a dia da vida. Afinal, ele passou muitos anos trabalhando em Roma.

Me lembrei deste fato no dia 21 de maio de 1995 quando a rádio informou de seu falecimento. E, confesso, a emoção voltou a tomar conta de mim. Sorri ao lembrar de sua mão passeando por minha cabeça e das únicas palavras que me disse em português, já que a missa toda fora em latim. E de novo me lembrei da batina esvoaçante que balançava com a suavidade do vento e com o andar tranquilo de seus passos.

E é aí que a gente percebe que a vida escorrega pelos dedos, nos escapa das mãos e nos provoca vazios que, mesmo sem a convivência, nos proporciona um momento de orgulho de um fato que não volta mais... E o “obrigado menino” ainda ecoa nos meus ouvidos, mesmo mais de meio século depois.

Nelson Manzatto é jornalista e escritor

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