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O Senhor da Pipa!

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10 de abril de 2019
Por Wagner Ligabó

O tempo passa e não nos apercebemos. Há exatos 11 anos – quem diria - publiquei um artigo no jornal "Bom Dia" intitulado “O Senhor da Pipa”, no qual contava a minha aventura em cortar caminho para chegar ao meu consultório pelo Jardim Bonfiglioli, curtindo suas graciosas particularidades, saindo lá do alto da Messina chegando cá embaixo na Bom Jesus do Pirapora já bem pertinho da clínica.

Entretanto o mais marcante deste trajeto alternativo para fugir do trânsito entre tantas coisas pitorescas, era a presença de um personagem folclórico do lugar, figura marcante diria, que sempre alentava minha passagem pela estreita Rua Marrocos, e se tornou meu talismã de pressagio de um bom dia: era encontrar o Senhor da Pipa, como passei a denominá-lo. Um idoso simpático sempre na sua, de bermuda, camiseta e boné, as vezes cachecol, sempre com seu inseparável cachimbo curvado a Sherlock Holmes, olhando silencioso, de forma introspectiva, o ambiente a sua volta.

Desde bem cedo ficava sentado num banco de madeira bem baixinho no sopé do portão de sua casa de paredes verdes saboreando lentas e gostosas baforadas seguindo com o olhar enigmático a todos que passavam a sua frente.

Às vezes o pegava distraído e neste momento eu o percebia estar literalmente só, absorto e pensativo, e com o olhar agora distante. Este seu jeito misterioso e particular, tão comum aos velhos sábios, era o que me cativava.

Em que estaria pensando? Saudades de sua juventude? Aguardando alguém que insiste em não passar? Relembrando as alegrias do passado? Quem sabe as tristezas? Ou olhando para o nada e esperando simplesmente a vida passar? Ele e seu jeitinho peculiar de sentar com a barriga colocada no meio das pernas lembrando, como nos contos de fadas, um sapo enfeitiçado a espera do beijo salvador da linda princesa, me encantava deveras.

Quando não estava lá, me preocupava. Precisava vê-lo todos os dias para assegurar que a vida, pelo menos ali, seguia tranquila e sem pressa.

Certa feita, ele olhou-me e esboçou um cumprimento através de um sorriso discreto. Retribui e lentamente passei por ele. Olhei pelo retrovisor e consegui vê-lo ainda. Seu vulto me confortava e pensava comigo: "Amanhã nos veremos novamente, se Deus quiser!” Um compromisso de vida.

Com tantos anos que se passaram para mim e para ele, com tantas preocupações a mais, confesso que nos últimos tempos não vê-lo com frequência não estava me preocupando tanto, mas sentia sua falta, pois meu caminho é o mesmo até hoje. Esta semana um paciente me conta que o Senhor da Pipa faleceu. Antonio era seu nome, algo que nunca soube. Foi um baque surdo em meu peito ao saber que uma referência minha de vida não existe mais. Sensação de vazio. Fará enorme falta ao meu âmago, “seu” Antonio!

A Rua Marrocos onde morava meu querido amigo oculto, minha estrela da sorte, desemboca na Rua Bom Jesus de Pirapora. Não existiria nome mais apropriado para coroar o êxtase de realizar este trajeto mágico de quatro minutos a tantos anos e que tão bem sempre me faz à alma e agora um motivo para exprimir minha saudade.

Não fujo às raízes. Sou um saudoso e, como diz os versos da canção, “sou caipira-pira-pora, Nossa Senhora de Aparecida...”

Peço sincero à santinha: valei-me...

Wagner Ligabó é médico cardiologista
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