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Por que escrever sobre ela?

Jundiaqui
17 de janeiro de 2020
Por José Renato Nalini

Não esperava perder minha mãe naquele dia.

Estive na segunda-feira, como sempre fazia, a almoçar com ela. Achei-a quieta, mas não atribuí grande importância. Na terça, não passou bem. Na quarta, idem. À noite, minha irmã Jane me disse que tudo estava sob controle. Por precaução, minha cunhada Sônia, viúva de meu irmão João René, dormiria com ela.

Na quinta pela manhã, minha irmã Raquel me telefona. Venha que a mamãe não está bem. Não entendi. Não captei a mensagem. Fui para Jundiaí pronto a censurá-la – carinhosamente – por não se cuidar mais. Encontrei-a morta.

Enquanto chorava abraçado ao seu corpo ainda quente, brigava com ela: – Por quê? Por que agora? Afinal, menos de um mês depois, casar-se-ia meu primogênito, João Baptista, com Maria Eugênia, filha de meus amigos de sempre, Zélia Maria Storani e Antonio Latorre de Oliveira Lima.

Não esperou, contudo. Deixou-me aquele imenso vazio, como sempre algum remorso, pois nunca me entreguei aos seus carinhos e nunca fui terno como ela gostaria. Confesso-me um pouco seco e desajeitado para demonstrar afetividade.

Senti o que é orfandade. Fiquei perdido. O único lenitivo foi escrever sobre ela. Foi tentar resgatar aquelas estórias que ela contava com tamanha insistência e que reiterava, sob meus protestos. Quanta vez não a interrompi a dizer: – Você já contou isso!” E ela, sem se zangar: – “Se você fosse bom filho, ouviria todas as vezes, sem me lembrar disso!”.

Agora, nunca mais ouviria as reminiscências de infância. As vicissitudes sofridas. A insistência com que falava sobre a morte. A gente chega a pensar que quem aceita a morte com naturalidade nunca a enfrentará. Não é assim.

Escrevi num fôlego, sem atentar para qualquer ordem, sem pensar duas vezes. Deixei que os sentimentos falassem por mim. Acreditei que no futuro, algum bisneto, algum trineto, quisesse conhecer alguma coisa a respeito do passado da família. Sem ela, a memória viva, tudo desapareceria.

Não expungi aspectos que poderiam ser mal interpretados. A vida não é sequência de cenários róseos e aureolados de fantasia. Ao contrário, é vale de lágrimas. Por que omitir sensações que, para ela, eram verdade?

Sei do risco de se escrever sobre alguém tão íntimo e tão querido. Não existe a menor possibilidade de uma postura neutral. Também não desconheço a receptividade de tais obras junto a críticos profissionais ou amadores. Só que não escrevi para eles. Escrevi primeiro para mim. Depois, para os familiares que tiverem interesse em guardar alguns aspectos de sua memória.

Fortaleci-me na certeza de que vidas aparentemente desprovidas de façanhas enormes e de feitos retumbantes também constituem continente de lições imorredouras.

Não houve dia, depois de sua partida, em que não lamentei sua ausência. Paradoxalmente, ela está cada dia mais presente em minha vida. Ouço-a a recomendar ação e abstenção. Era impossível deixar de opinar sobre todos os assuntos. Com ela não havia o “politicamente correto”. Aprendi a ouvi-la, nem sempre a segui-la. Mas a amá-la sem condições.

Pretendo continuar assim.
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