Jundiaqui
Jundiaqui

Quando um terço da população jundiaiense era formada por escravos

Jundiaqui
2 de abril de 2019
Por José Arnaldo de Oliveira

Em seus mais de 400 anos - oficialmente são apenas 363 anos -, as colinas de Jundiahy viram de tudo e os ecos afro-brasileiros, luso-brasileiros ou tupi-brasileiros estão na longa história da identidade local, depois marcada pelos imigrantes. Mas ainda chama a atenção encontrar dados como de 1836, quando na população registrada em documentos oficiais havia um morador escravo para cada dois moradores livres.

É fascinante pensar como avançamos como sociedade e, em especial, como cultura - mesmo com essa vergonhosa estrutura de fundo racial dos tempos ancestrais. E geramos tantas formas de música, de design, de linguagem, de dança, de gastronomia ou de solidariedade...

Muita gente livre também era contra a escravidão humana. Tanto que seu término oficial em 1888 ficou marcado em ruas como Abolição, 13 de Maio, Princesa Isabel e outras. Com o tempo, passamos a entender que isso não acabou com o racismo e deslocamos a celebração para o Dia da Consciência Negra, em novembro, quando a cidade tem uma tradicional marcha.

Voltemos a 1836. O censo da época contava 5.885 pessoas, das quais 3.834 “livres” e 2.051 “escravas” (489 e 253 entre as crianças) na vila colonial, uma das mais antigas do país.

Os números são de estudo organizado por Maria Sílvia C. Beozzo Bassaneli no acervo do Núcleo de Estudos de População (NEPO-Unicamp) em uma série chamada "São Paulo – Dados Demográficos".

OUTROS DADOS

Mais de meio século depois, em 1890, ainda eram 80% dos moradores que não sabiam ler e escrever. Isso não quer dizer ignorância, mas apenas que além do suporte escrito oficial existia o suporte oral popular. É preciso diferenciar cultura ágrafa de analfabetismo. Nessa época já eram 12.051 moradores, sendo 1.734 deles estrangeiros, já como cidade imperial. Não se contavam em separado os agora “ex-escravos”, muitos deles libertos desde o início das ferrovias ou pelos movimentos solidários por alforria como o que originou o Clube 28 de Setembro, ainda hoje em atividade.

É claro que sempre houve pessoas contrárias à escravidão – mas sua estrutura de tráfico era gigantesca e financiada primeiro pelo açúcar que valia mais que o petróleo atual e depois pelo café.

Em meados dos 1700, há registros de tropas vindas da capital e que foram contratadas pela Câmara de Jundiaí para exterminar (literalmente) um quilombo em área da atual Itupeva.

Na verdade, desde os anos 1600 havia um local de castigos públicos no Largo do Pelourinho, atual praça Rui Barbosa, ainda quando a escravidão era dos índios (os chamados “negros da terra”) cujo idioma foi usado no cotidiano colonial por mais 200 anos. Inclusive no próprio nome de Jundiahy.

Vale pensar em como, mesmo nas dificuldades atuais, avançamos. A terra onde vivemos tem essa marca, tanto como a cultura caipira e suas formas culturais ou de solidariedade e a cultura empreendedora agrícola, operária ou industrial dos imigrantes (em particular italianos) e ainda existe a cultura urbana ou ecológica da virada do século 21.

Todas se somam no que é um pouco dessa terra – que encara o desafio de qual é sua cultura hoje: qual suas “city brands”, na linguagem de tempos digitais e disruptivos. Ou, voltando ao tema do inconsciente coletivo: o que resultou de todos esses processos ancestrais?

José Arnaldo de Oliveira é jornalista e sociólogo / Ilustração: Diógenes Duarte Paes
Jundiaqui
Você vai
gostar de

Bloco da Ponte Torta vai ao Juventus com Baile das Máscaras

É neste sábado, com entrada a R$ 10,00. Quem canta é Renato Viana e grupo

Até onde vai a liberdade

José Renato Nalini escreve sobre o canal de comunicação preferido dos que querem instantaneidade e escala crescente

Tom Nando no Happy Hour do Maxi Shopping

Cantor e compositor se apresenta na Praça de Alimentação a partir das 19 horas

As gêmeas

Por Cláudia Bergamasco
Jundiaqui
Artigos assinados não representam a opinião do site. Esse conteúdo é de responsabilidade exclusiva de seu autor.