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Tempo da maturidade

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27 de agosto de 2018
O sentido de finitude pode ser extremamente benéfico porque impulsiona atitudes positivas e novas, argumenta Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Como é bom, imprescindível, se desprender daquilo que não te representa mais. Roupas, objetos, móveis, sentimentos, tudo. É como a morte vista pelo lado bom: o sentido de finitude pode ser extremamente benéfico porque impulsiona atitudes positivas e novas, diferente de tudo que você estava acostumada durante toda sua vida.

Eu estou neste processo. Quando uma mulher atinge a maturidade total, ou seja, o corpo lhe diz que ela já não é um brotinho porque a menopausa (a grande chamada biológica do “cinquentar” ou “sessentar”) chegou e tudo mudou, o desprendimento, o desapego das coisas materiais ajuda no alcance de um novo patamar de existência. Você aprende que seu corpo fenece, sim, e o que era tão importante antes já não tem mais tanta importância assim.

Acontece o mesmo com os sentimentos. Você se desapega daquilo que lhe parecia impossível viver sem e percebe que, no fundo, eles nunca fizeram bem ao seu coração, ao seu corpo, à sua mente. Nunca supriram as suas necessidades físicas e emocionais mais primárias. Nesse ponto da vida você consegue enxergar tudo isso e deixar para trás sem dó. É quando se dá conta que o “ser” é muito mais importante do que o “ter”; que a maturidade é uma longa e aconchegante colcha de retalhos costurada com muito carinho, bem devagarinho, e, ao mesmo tempo, com tensão. Que deixa marcas físicas e emocionais muito profundas, mas também que chegou o tempo da emancipação.

Entretanto, esses sentimentos continuarão no seu caminho, como um rastro que nunca será apagado, porque, afinal, compôs a sua vida até agora e continuará a compô-la (nem sempre é positivo apagar o passado, principalmente quando se aprende com ele). A diferença é que você não mais olhará para esses sentimentos da mesma forma e também não tentará recuperá-los. O ser, o seu ser, inteiro e saudável, toma finalmente lugar.

Enquanto isso, você tem que lidar com experiências diferentes, aquelas que vêm do seu próprio corpo. Tudo seca e fica mais fino depois que a menopausa fixa moradia no seu invólucro interno e externo. Pele, cabelos, unhas, útero... tudo. Você chora fácil (eu chorava até com propaganda da Casas Bahia), entra em depressão, sente uma irritação exacerbada, um sono incrível, um tesão inimaginável. Pelo menos comigo foi assim. Talvez com você seja diferente, com reações mais brandas, mas tudo isso é real, acontece mesmo.

Para isso existem as indústrias cosmética e farmacêutica – graças a deus. Use-as. Contudo, para as dores da alma, aquelas que a gente carrega por uma vida ou mais, não há nada que possa ser feito senão você mesma exercer o direito de quem você é de verdade, aceitar o que houve (ainda não é possível rebobinar o tempo) e aceitar-se como é e ponto. Com suas cicatrizes, lembranças boas e ruins. Na balança, talvez você consiga mensurar que as coisas boas pesaram e ainda pesam mais que as ruins. Há que se ter cabeça boa e coração firme para seguir em frente. Cair e levantar cada vez mais forte sempre. Afinal, agora você está emancipada, não está?

Daí a suposição de que você será capaz de resolver “combos” de problemas vindos de todas as fontes possíveis. Bem, não é exatamente assim, mas essa certamente não é a hora de despencar. Se precisar, entre e tranque a porta do seu quarto quando a casa estiver vazia e grite, chore, esperneie, se descabele, xingue, fale tudo. Quando se acalmar, verá que a sua dignidade estará sempre em primeiro lugar. Lidar com a verdade é o melhor caminho e sempre será. Autopunição é ignorância; se largar é um tiro no pé.

O medo de se olhar no espelho e ver uma mulher que embarangou, engordou, enfeiou, encalhou, a bunda caiu, os peitos murcharam, ter aquele sentimento inútil de que ninguém mais gosta de você não resolve nada. Ao contrário, piora muito. É preciso gentileza, respeito e delicadeza ao ver que seu corpo, seu rosto e o seu eu interior mudaram. A amiga da academia disse pelas costas que você está velha e caída? Ah, ela ainda deve estar na fase Barbie mesmo sendo uma cinquentona. Então, dane-se ela! Quem paga suas contas? Quem viveu e superou os absurdos da vida? Só você. Então, banana para ela e para todos aqueles que criticam a sua aparência e o modo de vida que você adotou. Eles não sabem de nada.

Você tem que se dar ao direito – ou deveria – porque já passou por quase tudo nessa sua “existenciazinha”: amores e desamores, perdas (de todo tipo), alegrias, decepções, provações (de todo tipo), já deu e recebeu (ainda que em medidas diferentes). E quem disse que isso tudo não continuará acontecendo? Afinal você está viva e enquanto o fim não chegar você terá uma vida inteira pela frente. O modo como escolherá viver os seus dias é problema seu. Só você sabe onde o calo dói, onde o cinto aperta. Cabe só a você reduzir ou, melhor ainda, eliminar essas dores e essas pessoas peçonhentas para sempre. Fácil? Não. Dolorido. Bastante. Um bom começo é mergulhar dentro de si mesma e achar as suas regras pessoais – que também significa não ter regra nenhuma.

Relacionamentos? São sempre muito bem-vindos, mas você pensará duas vezes antes de se atracar com um outro alguém. É um mecanismo de defesa que a maturidade nos dá. O cara pode ser fofo, mas nem sempre rola. Eu mesma já desisti de um bom relacionamento. Primeiro porque é difícil para caramba. Segundo que eu já não tenho paciência para joguinhos de conquista. E o terceiro motivo está ligado ao primeiro: encontrar alguém para dividir a vida com felicidade, verdade e etcetera e tal é mais difícil do que ganhar sozinha na mega-sena de Natal. Eu, pelo menos, encontro homens chatos, desinteressantes, interesseiros e que só estão a fim de cama e não de um relacionamento de fato. Então, joguei a toalha. Além, é claro, de ter ficado muito mais seletiva.

Joguei a toalha, mas minha libido continua a mil. Envelhecer é um estigma. O senso comum diz que a partir de certa idade ou depois da menopausa a mulher perde a libido. Oi?? Só se for com você, cara pálida que não sabe de nada.

É preciso ter prazeres de todo tipo a vida toda, especialmente depois de ultrapassar o seu primeiro século de existência. Só isso já é motivo de comemoração. Escolha ser feliz com qualidade. Coma, beba, viaje, conte piadas, ria de si mesmo, chame os amigos (verdadeiros) para jogar conversa fora e gargalhar de tudo o que vocês viveram juntos. Busque tranquilidade emocional, cultive sua autoestima, faça tudo com entusiasmo, capriche no visual, seja uma diva. Rugas são sinais naturais de que você está mais viva que nunca. Sinais de dignidade.

Para mim, fazer 50 anos foi um marco. Eu diria que fazer 50 ou mais anos (já vou alcançar os 55) é sempre um marco. Você não precisa mais cumprir uma maratona de tarefas e enfrentar o leão na selva para sobreviver e cuidar dos seus. A vida agora é só sua. Escolha. O que você quer de verdade? Qual é o seu repertório, o seu propósito?

Provocações para pensar na cama – quem sabe com aquele sapo que virou ou ainda vai virar um príncipe (real) na sua vida (real).

Cláudia Bergamasco é escritora
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