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Triste gente desmemoriada

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21 de maio de 2018
Por José Renato Nalini

O Brasil de hoje parece que surgiu há alguns anos e que tudo começou com os atuais quadros. Políticos, atores, cantores, jogadores, celebridades. Não existiu passado, nem interessa o futuro. Importa é o presente, com a busca de interesses imediatos. Vide a “tática das homenagens”: o importante é o cargo, não a pessoa. Reverenciem-se os cargos, as funções, qualquer ser humano que detenha – até por pouco tempo – uma parcela de poder.

Já fomos melhores. Já tivemos brasileiros mais patriotas. Revisito, com nostalgia, um pouco da vida de José Bonifácio de Andrada e Silva, não o Patriarca da Independência, aliás meu Patrono na Cadeira 40 da Academia Paulista de Letras. Mas o “Moço”, ao mesmo tempo neto e sobrinho do “Velho”.

José Bonifácio nasceu em 1827, o mesmo ano de criação da nossa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Nasceu em Bordeaux, onde seu pai se encontrava exilado. Filho de Martim Francisco, um dos irmãos Andrada, e de Gabriela Frederica, filha de José Bonifácio o Patriarca. Ao se casarem, no ano de 1820, ela tinha catorze anos e o tio, seu marido, quarenta e cinco.

Foi um estudante exemplar. Estudou nas Arcadas e logo após formado, foi nomeado Lente Catedrático Substituto na Faculdade de Direito de Pernambuco, onde permaneceu por três anos. Nomeado Lente em São Paulo, aqui lecionou por décadas, jubilando-se em 1881.

Foi um homem polivalente. Poeta, professor de Direito, parlamentar e orador, um dos mais importantes abolicionistas brasileiros.

Alguns enxergam nele um “poeta menor”, pois não se compararia aos que conseguiram seus nomes inscritos nas colunas de sustentação da Velha e Sempre Nova Academia do Largo de São Francisco: Fagundes Varella, Álvares de Azevedo e Castro Alves. Mas críticos severos, como Silvio Romero e João Ribeiro o elogiam. Consideram-no até influenciador da poesia de Casimiro de Abreu, “Meus Oito Anos” e de Luiz Guimarães Júnior, “Visita à Casa Paterna”. Dez anos antes deles, elaborou poesias que têm muito em comum com esses tão repetidos versos.

Foi pioneiro ao contemplar o africanismo em sua poesia. Ao escrever “Saudades do Escravo”, profetizava a sua vocação para lutar pela libertação dos irmãos africanos tratados como semoventes, quais mercadorias, vergonha que só desapareceu formalmente em 1888, dois anos depois da morte de José Bonifácio, “o Moço”.

Como professor, em 1868 lecionava para terceiranistas famosos: Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Castro Alves, Afonso Pena e Rodrigues Alves. Suas aulas eram tão esplêndidas, que Rui Barbosa chegou a escrever: “Discípulo, como fui, de José Bonifácio, seria orgulho, se não fosse gratidão, vaidade, se não fora dever, dar-vos aqui testemunho do seu magistério. Foi em 1868, quando comecei a ouvi-lo. ..Quando José Bonifácio assomou na tribuna, tive pela primeira vez a revelação viva da grandeza da ciência que abraçávamos. A modesta cadeira do professor transfigurava-se; uma espontaneidade esplêndida como a natureza tropical borbulhava dali nos espíritos encantados. Um sopro magnífico animava aquela inspiração caudal, incoercível, que nos magnetizava de longe na admiração e no êxtase”.

Nesse mesmo ano, os alunos se reuniram para homenageá-lo num banquete que aconteceu na Sala da Concórdia, em 13 de agosto. Quem o saudou foi Joaquim Nabuco. Ao rememorar essa festa, Rui Barbosa novamente esgrima seu belo verbo: “Entre as reminiscências do meu curso jurídico nesta cidade, nunca se me desfará da lembrança a recepção com que o acolheu, depois do golpe de estado de 16 de julho, a juventude acadêmica de 1868, em um banquete político de grandes proporções, que assinalou data na memória de quantos o celebramos; Joaquim Nabuco, o futuro orador do abolicionismo, ponto radiante que já se destacava na coroa solar do nome paterno;” – e enuncia outros nomes – para concluir: “José Bonifácio teve ali palavras comovidas, que se fonografaram no espírito dos ouvintes: ‘Os combatentes de hoje’, dizia, ‘são as aves já em meio do caminho, pisadas nos ramos secos da floresta. A mocidade é o futuro, as andorinhas em busca da primavera e da luz!”. Nisso um aluno aparteia: “A luz é Vossa Excelência!”, fazendo com que todos aplaudam, longamente, o homenageado.

Há muito mais a ser dito sobre José Bonifácio, “o Moço”. Quem é que hoje se lembra dele?

José Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista
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