Jundiaqui
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Uma velha lição da Serra do Japi

Jundiaqui
4 de abril de 2018
Por José Arnaldo de Oliveira

A lua ainda não chegou quando percorremos as trilhas do Japi sobre as bicicletas. Um tapete estelar cobre nossa viagem, iniciada com uma simples ficha telefônica do século 20.

Termina o asfalto. E enquanto saltamos nas pedras notamos a companhia temporária de outros ciclistas subindo e, mais adiante, um grupo descendo seguido por um jipe.

Na luz do farol uma coruja passa. Um pequeno animal atravessa correndo a estrada. Estamos felizes, mas apreensivos. A lua não ilumina o caminho, mas os olhos acostumam-se com a suavidade das estrelas.

Chegamos a mais de mil metros de altura, creio, quando o grupo de apoio retorna para dizer que o sítio está fechado. Decepção e planos. Carros com luzes piscando passam – e mães descem preocupadas. O grupo de ciclistas descendo era de seus filhos menores que se perderam nas trilhas. Aliviadas com nossa informação, vão embora – e empresto uma saca-rolhas do guarda florestal que mora ali há muitos anos.

Alguns goles de vinho branco depois, partimos para o centro de pesquisas científicas em busca de acomodações. O local está iluminado e é muito bonito, mas o guarda de turno não tem escolha. Começamos a respirar profundamente pelo “downhill” que nos espera. Mas não descemos muito antes de, gritando, eu seja o primeiro a rodopiar entre areia e pedras.
A lua! Diversos cães ladram enquanto eu uivo. Imponente e graciosa, a lua majestosa.

Saco uma flauta da mochila e arrisco notas de "Cio da Terra" ou "Stairway to Heaven". Obviamente desisto logo. O grupo de apoio está conosco e descobrimos um abrigo atrás de uma gigantesca e centenária paineira. Sentados, peço que a fada de São Thomé cante para nós e para as árvores que nos observam, curiosas. Ela apresenta uma canção de um grupo de Brasília, onde se diz que ninguém nunca está sozinho porque faz parte do todo.

Decidimos finalmente encarar a descida da montanha – e os minutos alucinantes de velocidade e vibração. Em pouco, estávamos envolvidos por carros, luzes, sons mecânicos e eletrônicos. A cidade.

Entramos no “pit stop”, talvez para uma cerveja ou um suco. O atendimento é feito por um companheiro (ninguém diria) de outra viagem memorável à mesma floresta. Falamos então da luta por um mundo melhor, de alimentos mais saudáveis e de interesses ocultos que ameaçam – por ignorância, mesquinhez ou a perigosa embalagem retórica do blábláblá. Enfim, do futuro – talvez trinta anos adiante, por exemplo.

Ah, comentamos também do filme vespertino chamado “O Sonho de Oz”, com sua mensagem sobre a importância da fantasia. E também do velho marceneiro que falou, no seu leito de convalescença, sobre o planeta estar mais leve enquanto areia e ferro são transformados pelos homens em prédios e casas. Mas e as árvores destruídas?

Quem hoje é vivo corre perigo, como diz o cantador Xangai em “Jatobá”. Sozinho a caminho de casa, encontro um casal de estudantes e criadores com quem posso me abrir e falar de minhas outras preocupações. A unidade cósmica, os neutrinos, a incrível velocidade da luz, a sensibilidade das plantas, a energia das abelhas, as piadas de hospício ou do Calvin, o paraíso perdido das Galápagos, a poesia e a essência do rock.

Enfim, uma sexta-feira de abril, no começo dos anos 90, que fazia lembrar um antigo iluminado que disse: eu sou o caminho. Pelo menos naquele dia, o caminho tornou-se o que gostaríamos de ser.

José Arnaldo de Oliveira é jornalista e sociólogo

 
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