Jundiaqui
Jundiaqui

A chuva

Jundiaqui
20 de novembro de 2018
Por Cláudia Bergamasco 

Chovia forte. Raios cortavam o céu enegrecido, trovoadas e ventanias faziam moradias tremerem e árvores balançarem feito um barco à deriva num mar revolto. Eram quatro horas da tarde daquele feriado de uma segunda-feira, mas parecia ser quatro da madrugada. Tensa, Tuca pegou seu gato, o Feijão, correu para seu quarto e se escondeu debaixo das cobertas. Teve ganas de abrir uma fresta da janela para espiar o manto da escuridão que lambia a cidade como se a cidade fosse uma massa densa prestes a derreter. Mas não tinha coragem. Por mais que quisesse, seu corpo estava preso à cama, inerte, como se pesasse uma tonelada. Mais trovões, mais raios nervosos iluminavam o quarto. Feijão enrolou-se entre as pernas da menina com olhos arregalados. Brilhavam no escurinho do edredom. Sua paúra era evidente, mas Tuca ganhava fácil do gato.

Sozinha na casa, um sobrado geminado com portas e janelas de madeira pintadas de verde musgo trancadas com tramelas, Tuca temia que o teto despencasse ou que a ventania jogasse as telhas do velho telhado da casa velha para longe. Com o coração no limite dos batimentos, tramava uma maneira de sair daquele pesadelo ilesa, levando Feijão nos braços. E se o vento arrancasse a janela do quarto? Iria para debaixo da cama e rezaria ainda mais do que já estava rezando. As largas folhas dos coqueiros do pequeno quintal da casa vizinha chiavam e se despenteavam escandalosamente aumentando a sensação de que, naquele momento, naquele lugar, o mundo iria acabar para Tuca. E ela nem tinha dado seu primeiro beijo ainda. Ficou fula quando se lembrou desse detalhe. O Samuel, aquele dos cabelos encaracolados, nem sabia que ela gostava dele. “Que raiva! Porque tem que ser assim”, falou alto, voz abafada pelo edredom, assustando ainda mais o gato amarelo rajado de branco, agarrado às calças de sua dona.

Ela poderia sair dali e buscar uma vela. Ficariam os dois na cama com o edredom erguido feito cabaninha. Porém, seria difícil segurar a vela e sustentar o edredom nas costas. O risco de atear fogo nas próprias cobertas a fez desistir da ideia. Além disso, estava frio naquela tarde de início de dezembro, o que era estranho, porque em dezembro faz calor. O mundo estaria mesmo acabando? Ela morreria ali, na cama com o Feijão? Não, não podia ser assim. Deus haveria de lhe dar chances de se tornar uma mulher, casar, ter filhos, virar uma profissional de alto nível. Mas, o pavor por tempestades... Não, ela não sairia dali. Feijão, unhas cravadas em seu jeans, também não. O que fazer?

A mãe e o pai de Tuca estavam trabalhando. O telefone ficou mudo, a energia elétrica acabou e os raios e trovões não davam trégua. A avó morava perto, mas não dava para ir até lá. As duas tias haviam se mudado da cidade. Nenhuma amiga, nenhum vizinho a escutaria com o barulho do aguaceiro que já inundara a rua tão antiga quanto as casas geminadas que lá foram construídas muitas décadas atrás. Será que a água invadiria a casa? Entraria como uma onda veloz ou lamberia o chão de tábuas largas e rangentes até achar buracos e frestas, subir as escadas e matar Tuca e Feijão afogados?

“Para, não seja ridícula!”, pensou consigo mesma. “Nós estamos no alto, né Feijão?”, falou para seu gato como se ele entendesse cada palavra e cada emoção da menina.

Feijão miava baixinho e a cada trovão ficava mais agitado. Embaixo da coberta, Tuca pensava em quantas tempestades não haviam assustado seus antepassados próximos. A casa em que a família morava era herança da bisavó da mãe. Muitas mulheres, crianças e adolescentes dormiram naquele quarto, que não mudara muito nos últimos cinquenta anos. Quantas delas não teriam aberto aquela janela de tramela para ver, com medo, tempestades. O que elas diziam? Como agiam? Como se safavam de situações como aquela, que, para Tuca, eram piores que filmes de terror?

A menina pensou em sua própria vida. Achava que sentia amor por Samuel. Mas, com seus onze anos, certamente ainda haveria de saber o que é o verdadeiro amor. Será que bastava Samuel lhe dar um beijo para “a coisa” acontecer? Será possível que ele não apareceria para salvar-lhe a vida naquele momento pavoroso?

Deixou suas conjecturas de lado e pulou da cama. Feijão aboletou-se debaixo dela. Tuca ajoelhou-se e rezou alto, cotovelos apoiados no colchão, mãos impostas.

“Papai do céu, Mamãe do céu, salve a mim e ao meu gato. Não quero morrer. Meu pai já deve ter comprado presente de Natal para mim e eu quero ver o que é. Também quero passar de ano. Sou boazinha, não vou mais pensar no Samuel, mas também não quero que ele pense em mais nenhuma menina. Aquelas chatas da escola são todas riquinhas exibidas. A gente não tem nada, meu Pai do céu. Salve todos nós, meus pais não estão em casa e quero que eles voltem logo. O Senhor está me ouvindo? O Senhor está me ouvindo, hein?” 

Nesse momento, a menina não escutava mais a água açoitar sua janela de madeira pintada de verde escuro. A chuva havia diminuído e ela levantou rápido. “Ai, meu Jesus, obrigada.” Ela tinha certeza que O Senhor a ouvira e, por isso, a chuva minguou. Era apenas um pé d'água de verão, mas Tuca preferia acreditar que alguém lá em cima a ouvira.

Estava escuro, a chave girou na fechadura da porta lá de baixo e as ferragens rangeram. “Tuucaaaaa!!! Mamãe chegou!! Cadê você?” Apavorada, a garota gritou “estou aquiii” e desceu correndo as escadas de tábuas rangentes direto para os braços da mãe. A menina suspirou fundo, relaxou e perguntou pelo pai. “Ele está chegando”, disse a mãe. “O que houve, você está com medo da chuva de novo?”

“Hããã.... nãããoo... eu estava lendo no quarto com o Feijão”, desconversou, querendo não parecer uma criança covarde. Desvencilhou-se da mãe e disse que estava tentando telefonar para o Samuel, mas faltou luz e nada funcionava na casa. “Sei”, disse a mãe, ciente do medo que a filha tinha de chuva. “O que mais?”

“O que mais o quê?”, respondeu Tuca com indiferença, como se ela nem tivesse percebido a tempestade que lhe apavorou. Neste momento, a luz voltou e o telefone tocou. Tuca olhou para a mãe e correu atender. Era Samuel.

“Oi, Tuca, liguei para saber se está tudo bem por aí. Aqui em casa deu uma chuva tremenda. Você viu?”

“Ah, vi, sim. Mas, sabe, nem percebi. Fiquei lendo com o Feijão lá no meu quarto.”

“Então, queria saber se você não quer vir aqui em casa amanhã depois da aula. Minha mãe vai fazer aquele bolinho que você disse que gosta e pensei em te convidar.”

Tuca corou, sentiu seu estômago borboletear e sorriu. “Hããã, tudo bem, posso ir, sim”, disse com certo desdém, mas com as entranhas incendiadas de felicidade. “Tá bom, até amanhã”, falou Samuel. Em seu coraçãozinho puro de criança, o sol voltou a brilhar, o céu tingiu-se de ouro e açafrão e os pelos do gato, que àquela altura já estava dormindo no maior sossego com o barrigão para cima, lhe fez lembrar os caracóis dos cabelos de Samuel. Será que eles eram macios? Cheirosos? A menina estava em devaneios quando a chuva voltou a cair forte. Bem forte.

Claudia Bergamasco é escritora e jornalista
Jundiaqui
Você vai
gostar de

Certificado de vacinação da febre amarela só para quem vai voar

A partir de segunda nas UBSs do Centro e Anhangabaú só mostrando passagem aérea para pegar documento

Jundiahy, uma das primeiras cidades brasileiras

Por José Arnaldo de Oliveira

O footing e o cinema

Por Vivaldo José Breternitz

Justiça do Trabalho põe estádio do Paulista em leilão novamente

Lances são esperados até 24 de novembro, sendo o mínimo de R$ 17,55 milhões
Jundiaqui
Artigos assinados não representam a opinião do site. Esse conteúdo é de responsabilidade exclusiva de seu autor.