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Ao gosto do freguês

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2 de dezembro de 2018
Pedidos de recuperação judicial das maiores livrarias é tema de reflexão de Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Desde o início da década de 1990, quando computadores tiraram nossas velhas e amadas máquinas de escrever da redação onde eu trabalhava (um grande jornal) dizia-se que o papel iria desaparecer. Não haveria mais jornais e revistas impressos. Quase 30 anos se passaram e a discussão permanece a mesma. A diferença é que há algum tempo a informação eletrônica convive, ou complementa, a impressa. Mas, e os livros?

Quando surgiram os primeiros aparelhos digitais de ler livros a polêmica sobre o fim do meio físico voltou à baila. Não sou contra, acho que um dia eu me renderei a um Kindle ou algo que o valha, embora ainda prefira mil vezes o livro físico (gosto do cheiro, de folhear, passar a mão). O fato é que somos um país gigantesco, com uma população idem e a maioria sem dinheiro e instrução, ou as duas coisas juntas, para entrar de cabeça na era digital dos livros. Ou seja, quem e quantos livros digitais seriam vendidos se boa parte, senão a maioria da nossa população, nunca leu um livro em papel na sua vida? Se a cultura da leitura nunca foi inculcada/incorporada na sua educação? Essa é uma questão.

A outra questão é mais profunda e diz respeito a uma mudança radical em como consumimos livros. Levanto essa bola pela trágica situação de duas livrarias terem, recentemente, pedido recuperação judicial porque têm dívidas gigantescas: Cultura primeiro, Saraiva em seguida. Em resumo, quer dizer que essas grandes redes não têm dinheiro para pagar seus credores e funcionários. Segundo a Cultura, o setor encolheu 40% desde 2014. Uma tristeza sem fim. Mais alguma rede terá que pedir recuperação judicial, seja por qual motivo for?

Segundo conjecturas do executivo Pedro Herz, membro do Conselho de Administração da Livraria Cultura, as livrarias não existirão mais do jeito que conhecemos – assim como as redações de periódicos e assessorias de imprensa também mudaram radicalmente. O próprio mercado, diz Herz, está “empurrando” não só as livrarias, mas o varejo como um todo a se tornar mais digital e com menos lojas físicas.

Lembro que, quando as primeiras megastores desse segmento foram inauguradas, décadas atrás, eu entrava e ficava atônita com a variedade de produtos afins num só lugar: mega paredes de CDs, DVDs, revistas, jornais, material de papelaria, eletrônicos, cafeteria, pequenas salas com brinquedos para crianças, poltronas confortáveis para sentar e se deliciar manuseando e lendo os livros que você elegeu como interessantes e/ou curiosos. Muito no espírito que a americana Barnes & Noble havia adotado muitos anos antes desse tipo de loja chegar ao Brasil.

De lá para cá – e não faz muito tempo –, as megastores foram fechando em favor de livrarias menores. Algumas resistem. A Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, por exemplo, é uma delícia. Fiquei em êxtase quando fui pela primeira vez. Ainda hoje, para quem gosta, pode ser um passeio de um dia inteiro, já que conta com tudo o que eu disse antes e mais restaurante. Nessa livraria tudo está separado por temas em estantes de madeira nobre e cheias de design. O mesmo sentimento eu tive quando a megastore da Saraiva foi inaugurada no Shopping Eldorado. Bons tempos aqueles. Milhares de reais foram investidos nessas megastores e muita pestana foi queimada para criar um clima e um tipo de ambiente (design de interiores) onde o consumidor se sinta totalmente à vontade e, claro, instigado a ler e comprar mais.

Tudo isso não bastou para cativar o leitor brasileiro (não vou abordar aqui a questão dos preços dos livros, esse assunto dá muito pano para manga e rende muitos outros artigos) a aumentar seu índice de interesse por livros e, assim, comprar e ler mais. O anúncio da Cultura em pedir recuperação judicial foi um baita baque no mercado livreiro. Com a Saraiva na mesma situação a coisa ficou muito feia. Segundo dados publicados, a Cultura deve 7,5 milhões de reais para a Companhia das Letras, 3,6 milhões de reais para a Record e 3,5 milhões para a GMT (Sextante, Arqueiro e Sextante Ficção). Um total de 285,4 milhões de reais. No total, a Saraiva deve 675 milhões de reais. Juntas, somam dívidas de 325 milhões de reais.

Esse intragável tabuleiro de letrinhas e números significa que as livrarias vão desaparecer? Não. Em minha opinião, não. Assim como publicações em papel também não vão desaparecer nem daqui a 100 anos – posso estar redondamente enganada. O que certamente vai mudar é o formato das lojas e a logística de entrega. Nós estamos numa fase em que o meio digital será, se já não for, a forma mais importante de venda de livros e periódicos.

Herz sugere que o varejo em si deve mudar por completo: em vez de lojas ou megalojas, teremos showrooms nos quais, eu digo, o consumidor deverá interagir com robôs – se bem que o preço a pagar não será barato. Milhares de vagas de trabalho serão fechadas o que levará a um encolhimento sem precedentes no número de funcionários, assim como aconteceu com as redações de jornais, revistas e assessorias de imprensa.

O sujeito vai apertar um botão, escolher o que ele quer ver e eventualmente comprar, pegar na mão (de algum modo que não consigo explicar ainda) o livro, a revista ou o que for, manuseá-lo, sentir o peso e, quiçá, poderá até mesmo sentir o cheiro. Isso é um exercício de futurologia, mas, acho eu, bem possível de acontecer num futuro próximo. Depois de interagir com o robô e a publicação, ele decidirá onde quer comprar, em que formato, se em papel ou digital, e como quer pagar.

A ideia não é nova muito menos esdrúxula. Há muito se fala nessa possibilidade. Lembro que, anos atrás, a Levi’s Co. criou, se não me engano em Nova York, uma loja onde o consumidor entrava numa sala, escolhia o tipo de jeans que ele queria, o modelo que lhe caia melhor no corpo, o tipo de lavagem e uma máquina escaneava seu corpo para a produção de uma calça absolutamente personalizada. Jetsons? Não, realidade.

Na verdade, não sei se a engenhoca deu certo. A Levi’s passou por uma turbulenta crise e também fechou lojas no mundo inteiro. Há muito tempo sua produção não está concentrada nos Estados Unidos e, sim, terceirizada por países onde o preço da mão-de-obra compensa. Ops, outro assunto que dá pano para manga – ou para pernas.

Voltemos ao mercado de livrarias. Sem livros, um país inteiro fica comprometido. Se o exemplo não vem dos pais, da escola, a criança dificilmente vai adquirir o gosto por livros, o hábito de ler com frequência e, portanto, desenvolver sua mente, suas opiniões, sua personalidade. “Todos os tipos de livros precisam sobreviver”, escreveu Luiz Schwarcz, fundador e presidente da Companhia das Letras, num apelo emocionante sobre a crise severa pela qual o setor de livrarias passa e que, graças aos céus, viralizou nas redes sociais. “Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva”, enfatiza Schwarcz. Eu concordo plenamente com ele.

Quem me conhece sabe o amor (e o ciúmes) que tenho pelos meus livros. Entre os desejos que cultivei durante décadas estava o de ter uma biblioteca-escritório. Fiz por onde e consegui. Talvez hoje esse seja um cômodo que as pessoas não mais projetem para suas casas, talvez eu seja mesmo das antigas e digo isso com muito orgulho. Toda noite, antes de dormir, eu fecho a porta da minha biblioteca-escritório para meu gato não dormir na bergère branca, onde também leio. De manhã, ao abrir a porta, sinto o cheiro mais delicioso do planeta: o de livros em papel.

Nunca desaprendi a excitação quase amorosa de estar entre livros, disse Lya Luft em um de seus livros. Comigo é igual. Páginas de papel ainda são a porta por onde entro com o maior prazer, levando minha bagagem de curiosidade. Amo estar ali. Olhar a disposição dos exemplares... aqui estão os García Marques, ali os Borges, acolá os mais diversos autores, acima os meus amados livros de design e decoração. Tudo distribuído em nichos por temas e/ou autores. Também me dou o direito de arrumar tudo conforme o tamanho: do maior para o menor. E assim mantenho sempre, ainda que sempre os manuseie. TOC?  Sim, pode ser. Eu diria que é amor, um cuidado que nunca deixarei de ter.

Estou na mesma vibração de Luiz Schwarcz e, por isso vou dizer o mesmo que ele: dê livros de presente, compre livros para si e para seus filhos. Faça doações a instituições confiáveis dos exemplares que você tem em duplicidade ou que já não fazem mais sentido na sua vida – certamente fará na vida de outra pessoa. Se vamos mesmo, num futuro muito próximo, nos relacionar com livros de forma totalmente digital, que seja – as vantagens e as desvantagens de cada modalidade ficam, de novo, para outro artigo. O importante é nunca deixar de ler bons livros, bons escritores, ler o novo, o velho, os clássicos universais, descobrir-se em um livro, embarcar na viagem da história. Isso tudo não tem preço e nunca desaparecerá.
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