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A Beleza, os Bens Culturais e as Construções da Igreja

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23 de dezembro de 2018
Pelo Bispo Dom Vicente Costa

“Planejaste construir uma casa para meu nome, e fizeste bem ao ponderar isso em teu coração” (1Rs 8,18).

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Nós, os cristãos unidos a Cristo pela força do Batismo, somos as pedras vivas (cf. 1Pd 2,5) do templo espiritual que é a Igreja, Corpo Místico de Cristo, do qual Ele é a Cabeça. Somos as moradas do Espírito Santo (cf. Jo 14,23). Necessitamos, porém, de lugares especiais para nos encontrar com Deus em assembleia, para proclamar e refletir sobre a Sagrada Escritura e celebrar o Mistério Eucarístico. O local destinado à reunião dos cristãos e, especialmente, da celebração dos sacramentos é chamado de “espaço litúrgico”. A sua forma arquitetônica e a sua disposição devem favorecer o encontro com Aquele que ali se faz realmente presente, mas se esconde, pois o espaço litúrgico deve remeter o fiel ao mistério de Cristo. Por isso, tanto este ambiente, quanto os objetos aí usados devem suscitar nos fiéis o desejo de encontrar a fonte de toda Beleza: Deus.

Na cultura hebraica, uma palavra correspondente à beleza seria shekiná (“a Glória de Deus”) manifestada em todo seu esplendor na feliz convivência de Deus com as suas criaturas. É o ideal do paraíso primitivo quando “Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31). No Antigo Testamento e no tempo de Jesus, até a sua destruição no ano 70 d.C., muito famoso era o templo de Jerusalém construído pelo rei Salomão (cf. 1Rs 6). Dezenas de milhares de homens trabalharam na construção dele, que custou muito dinheiro. Isso porque foram usados nele muito ouro e prata.

Mas a centralidade da Pessoa de Jesus Cristo para os cristãos faz com que a arte sacra seja dirigida para promover o louvor e a glória a Deus, por meio do seu Filho Encarnado, Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Ele é o verdadeiro Templo por meio de quem Deus é adorado “em espírito e verdade” (Jo 4,23). Assim, as obras criadas pela inspiração religiosa transmitem a fé e a piedade que convêm à majestade da casa de Deus, da “igreja”, o templo material, tanto que o espaço litúrgico deve revelar o Cristo Encarnado, Sofredor e Glorioso (cf. Jo 2,21) em sua totalidade: Cabeça e membros. Portanto, no espaço sagrado, faz-se experiência da Aliança com Deus: o povo fiel se constitui como Igreja de Cristo e recebe o dom do Espírito Santo.

A missão salvadora da Igreja a partir da beleza (arquitetônica, musical, litúrgica, entre outros) ficou conhecida ao longo dos séculos como via pulchritudinis (“o caminho da Beleza”), um dos métodos pastorais mais frutuosos para o anúncio do Evangelho. No ser humano a atração pelo divino se funda no senso da admiração, do maravilhoso e da transcendência. Na conclusão do Concílio Vaticano II, São Paulo VI dizia aos artistas: “o mundo em que vivemos tem necessidade da beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, traz o gozo ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração. E isto por vossas mãos” (Mensagem aos artistas, 08/12/1965).

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis (“Sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja”), o Papa Bento XVI insiste sobre a íntima e essencial relação que existe entre a beleza e a liturgia. “De fato, a liturgia … tem uma ligação intrínseca com a beleza: é esplendor da verdade (veritatis splendor). Na liturgia, brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo nos atrai a si e chama à comunhão” (n. 35a). Deste modo, o Santo Padre conclui que “a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto nos há de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à ação litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza” (n. 35b).

Ciente de tudo isso, a nossa Diocese promoveu no Anfiteatro Pio XII da Cúria Diocesana, no último dia 1º de dezembro, o Encontro Diocesano da Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja e do Espaço Sagrado (CBCI). Sob a coordenação do Padre Carlos Rafael Casarin e estando presentes os membros desta Comissão Diocesana, Padres, diáconos, seminaristas, responsáveis de patrimônio das Paróquias, engenheiros, arquitetos e convidados, o encontro proporcionou um panorama da missão da CBCI que é: promover o conhecimento, a conservação, a valorização cultural e evangelizadora dos bens culturais da nossa Igreja diocesana, reconhecendo que as construções das igrejas e dos locais adjacentes, na sua arquitetura e disposição, devem refletir o caráter sagrado, artístico e funcional dos nossos locais a serviço da evangelização.

Como, infelizmente, vivemos em uma época do descartável, existe sempre a grande tentação de fazermos improvisos, “puxadinhos” ou desvalorizarmos as “coisas antigas”. Combater esse espírito é também a missão da CBCI. Como na Diocese de Jundiaí há riquíssimas obras culturais (templos, quadros, imagens, objetos sacros, paramentos, vitrais, azulejos…), o trabalho da CBCI é conscientizar, catequizar e, se preciso, corrigir o quanto for preciso, a fim de salvaguardar os bens culturais de nossas igrejas, pois ali há uma identidade e uma história a serem lembradas e conservadas. Além disso, também é missão da Comissão estabelecer normas para as novas construções e reformas a serem feitas. Nesta tarefa torna-se muito necessário orientar e incentivar a formação dos membros dos nossos Conselhos Paroquiais de Economia e Administração (CDEAs) nesta área de trabalho, como também acompanhar os projetos e as construções das nossas obras.

Queridos irmãos diocesanos: em sua obra “O Idiota” (São Paulo: Editora Martin Claret, 2015, p. 344), o autor, Fiódor Dostoiévsky, colocou na boca de um de seus personagens a frase: “A Beleza salvará o mundo”. Realmente, o esplendor do Cristo, que seduziu a tantos artistas e apreciadores de suas obras, nos impele para uma responsabilidade sobre aquilo que recebemos das gerações passadas e nos fortalece como vínculos para as futuras gerações. Pois somente o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,27) pode reproduzir o Belo, cuja fonte e princípio é o próprio Deus, e merecer o elogio do Salmista: “Tu és o mais belo dos homens, nos teus lábios se espalha a graça, por isso Deus te abençoou para sempre” (Sl 45[44],3).

Pela intercessão da Virgem do Desterro, a Toda Bela, abençoo atodos, principalmente todos aqueles que se empenham, em nossa Diocese, a tornaros nossos locais de culto e de trabalho evangelizador um hino à Beleza divina.

 
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