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Eu não sou escritora

Jundiaqui
1 de outubro de 2018
Escrever é uma forma de libertação e não uma classificação profissional, alerta Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Eu não sou escritora. O fato de eu ter sido ghost writer de um só livro, uma biografia (desafortunadamente não autorizada para publicação), não me qualifica como uma escritora. No máximo, pode, apenas, me colocar na condição de saber escrever, de saber como ser uma ghost writer – se é que essa condição não seja uma grande pretensão minha.

Também não sou e nunca pretendi ser uma poetisa. Escrevo uns versinhos de vez em quando e, cá entre nós, são de qualidade bastante questionável.

Prefiro me autodenominar uma jornalista que passou para o outro lado do balcão, o da literatura, cansada que estava de escrever sobre economia, finanças e assuntos afins, ainda que extremamente vibrantes para um país como o Brasil. Cansei desse mundo a ponto de não ter mais estômago para falar dele. Sigo esses temas, me mantenho informada, gosto de saber, mas deixo minhas opiniões e apurações de lado. Prefiro a literatura, um caminho pelo qual ainda engatinho, porém tenho ganas de chegar, um dia, a ser uma boa escritora. Ou ghost writer. Ou as duas coisas, porque não?

Desde que passei a escrever contos, crônicas, artigos, versos tornei-me uma mulher mais livre, sem o peso que o jornalista de primeira linha carrega. É uma profissão difícil. Você quase não tem vida própria, muito menos social. Seus relacionamentos se resumem aos coleguinhas e fontes. Não tem tempo para nada além de trabalhar, estudar e se aperfeiçoar de todas as maneiras possíveis todos os dias e sobre qualquer assunto que esteja escrevendo ou a área que você cobre. Não que no campo literário você deixe de estudar e longe de afirmar que aprender e estudar sejam coisas ruins. Muito pelo contrário; eu adoro – uma das coisas boas do jornalismo como profissão. Mas, hoje, para mim, faz mais sentido a pesquisa, a leitura de muitos livros e documentos, entrevistas formais e conversas em off para escrever livremente, sem rabo preso com nenhuma empresa do que como jornalista celetista ou não. A diferença está no foco.

Na literatura você passa a prestar mais atenção em aspectos que antes até percebia, mas não dava tanta importância porque não era relevante à informação seja ela qual fosse. Agora, um gesto, um tipo de pessoa, uma conversa despreocupada e despretensiosa entre duas ou mais pessoas podem tornar-se a base, o ponta pé para um conto, um texto de ficção, com personagens inventados a partir de uma realidade disponível em todo canto e a qualquer um. Aprendi que quando isso acontece e eu sigo meus instintos como jornalista e pretendente a escritora, o personagem ganha personalidade própria. Você não tem mais total controle sobre ele, sobre todos os outros personagens envolvidos na história. Aí é que a coisa começa a ficar bacana. Tanto para mim quanto para o leitor, acredito. A história flui naturalmente.

Há quem goste e quem não goste ou simplesmente ignore o que escrevo. Um dia, um cara que me detesta (eu nunca saberei o motivo) me disse que eu vivo em um “universo paralelo”. Se for na área da literatura, ou melhor, dos textos que “escrevinho”, concordo plenamente. Crio personagens que só existem na minha imaginação fértil. É certo que muitas vezes exponho minhas próprias opiniões, mas prefiro me abster. As críticas não construtivas não me fazem crescer. Então, me calo e relevo a opinião desse cara que me detesta. Falo por meio de personagens e suas próprias vidas, atitudes e opiniões. Sair da realidade e entrar num mundo peculiar, particular, que diz respeito apenas aos personagens que crio, me proporciona um escapismo e maior sanidade mental e emocional. Fico satisfeita se tocar o leitor.

É muito bom ter a percepção da (ir)realidade vista com olhos singulares. É uma forma de explorar a minha fantasia, “conversar” com meus anjos e demônios e, assim, tentar encontrar um equilíbrio. Minha vida não é cor-de-rosa (e qual é?). Está mais para cor de carvão. O ato de escrever ameniza esse tom escuro.

Uma observação curiosa: costumo escrever na cama ou na bergère instalada num canto gostoso do meu escritório, mas nem sempre ela está disponível. Meu gato também adora esse lugar e, como ele é gordo e espaçoso, nós dois juntos ficamos mal acomodados e eu cedo meu assento para o seu conforto. Sempre agradeço sua generosa, deliciosa, silenciosa e linda companhia nessas minhas jornadas interiores.

Esses são os dois lugares em que meus personagens criam vida. Artigos, crônicas, contos, um texto opinativo... tudo termina ou começa ali. Aliás, o início pode ser em qualquer lugar ou qualquer coisa que desperte minha atenção e atice a minha imaginação. Nem sempre consigo transformar em palavras o que vejo ou ouço, mas eu tento. Tenho zil textos escritos e nunca publicados aqui ou em qualquer outro lugar. Reservo-me o direito da classificação “bom”, “razoável”, “ruim”, “péssimo”, “impublicável”. E assim sigo a escrever. Sempre. Palavras me perseguem dia a dia e gosto disso. Mas, repito, sou apenas uma jornalista com a necessidade de escrever fora da caixa.
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