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A falácia da proteção

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10 de outubro de 2018
Por José Renato Nalini

O ser humano tem especial propensão à mentira. Mente, despudoradamente, nas pequenas e nas grandes coisas. Uma das mentiras mais comuns é aquela de que está a cuidar de maneira adequada de um patrimônio que não é dele: estava aqui quando ele chegou; dele se serve de forma irresponsável; gera a probabilidade de não conseguir legá-lo para as gerações do porvir.

Estou falando da natureza, do ambiente, dos recursos naturais, tão espoliados e tão desprotegidos. E da mentira deslavada de que eles estão sob a égide de um ordenamento preordenado a preservá-los.

Pois as “áreas protegidas” ostentam autoestradas, poços de petróleo, pastos e cidades. Zonas inteiras que formalmente estão sob a tutela do Governo e da sociedade, suportam pressão humana significativa. A ponto de se tornar insuportável.

É relatório da revista científica "Science", a respeito de 6 milhões de quilômetros quadrados de terras protegidas. Nelas, a proteção de espécies em perigo reduz-se a cada minuto. Só 10% das áreas estão ainda sem atividade humana. Ainda, porque o destrutivo homem lá chegará. E tais dez por cento estão em regiões inóspitas e remotas, como a Rússia e o gelado Canadá.

Pouco adianta criar por decreto áreas protegidas. Se o fetiche da lei fosse levado a sério no Brasil, este seria o mais civilizado dentre os Países. Há lei para tudo. E em abundância. Mas o cumprimento da lei é uma mentira. Chegamos a ponto de importar ararinhas azuis, aqui nativas, mas salvas por outros povos mais civilizados do que o brasileiro.

O privilégio da devastação não é nosso. Existe na África, na Europa e na África. E também nos Estados Unidos, agora dizimados por um tsunami antiecológico bem potente. O triste espetáculo é o de que 90% das áreas protegidas no mundo, como reservas e parques naturais estão submetidas a prejudiciais e criminosas atividades humanas.

A ecologia, assim como a educação em geral, chave para a transformação efetiva da sociedade, aparece no discurso de algum presidenciável? Talvez de passagem. Mas não é algo que impregne o imediatismo da política partidária, mais ligada ao presente e pensando em si mesma, em dinheiro, poder e glória, do que num amanhã no qual os seus representantes aqui não mais estarão. Mas continuarão responsáveis pelos desmandos e pela crueldade que hoje sustentam com as suas vãs, imediatistas e tolas pretensões.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.
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