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Fragmentos de mata, afrofuturismo e os índios

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24 de abril de 2018
Por José Arnaldo de Oliveira

O processo de alterações no Plano Diretor, um tipo de legislação em que Jundiaí foi uma das cidades pioneiras, tem riscos evidentes. Prestes a completar seu 50º aniversário de existência, tem sua versão atual na lei 8.683 aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal em 2016 depois de três anos de muitos debates participativos ou técnicos.

Nada contra ajustes em pontos que possam ser melhorados, como indicam diversas propostas.

Me preocupam, entretanto, sugestões como de revisão sobre o mapa dos remanescentes de vegetação nativa, substituindo-se o assunto pelo cumprimento das leis estaduais.

Mas é exatamente pela sua capacidade de maior conservação ambiental que a legislação municipal pode ser qualificada. E o tamanho dos fragmentos de mata nativa, sejam de mata atlântica ou de cerrado, foram mais detalhados no trabalho dos técnicos municipais do que na legislação estadual.

A interdependência entre certas espécies animais e vegetais é tão grande que ao eliminarmos trechos de mata nativa estamos decretando a extinção - mesmo que das últimas espécies restantes - em um determinado local. Ainda bem que temos bons técnicos no setor público, mas é preciso estar atento a pressões sobre o governo.

Em tempo: o mapa 3 dessa lei identifica 928 fragmentos de mata nativa no município, a partir de um intenso levantamento de campo. A questão é também cultural, pois são árvores e lugares que nossos ancestrais caipiras conheciam pelo nome ou apelido e, agora urbanoides, ignoramos.

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Na data de 22 de abril, quando as escolas costumavam celebrar o chamado “descobrimento” destas terras pelos portugueses, compartilhei como desejo de consumo o livro "1499 – O Brasil Antes de Cabral", de Reinaldo José Lopes. E recebi a dica de um sobrinho, o Thiego, sobre outro livro que não conheço chamado "1565- Enquanto o Brasil Nascia", de Pedro Doria. Sem dúvida é uma boa hora de reatualizar o olhar caucasiano do país. Não para trocar alguma coisa por outra, mas para ampliar e renovar.

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Falando nisso a boa lotação de salas dos cinemas de shoppings ao filme “Pantera Negra”, da Marvel, tem reforçado na mídia as referências ao movimento chamado afrofuturismo que tomou a cultura pop. Isso faz notar como o underground de Jundiaí está conectado nessa onda há muito mais tempo. Basta ver algum trabalho da jovem Ma Boo, com sua mescla de MPB e hip hop, ou o movimento surgido em torno dos turbantes da PretaEu como a feira EncontrAfro (foto abaixo), entre dezenas de outros exemplos de DJs, espaços e eventos alternativos. Muitas vezes em conexão com o mais antigo clube negro em atividade do Estado, que é o Clube 28 de Setembro. Tudo somando com os demais cenários marcados por música brasileira, rock ou sertanejo.


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A questão afro também remete ao Largo do Rosário – que costumo chamar de Largo do Pelourinho e uma atual geração madura conhece como Largo do Quartel. De qualquer maneira, quase nada dessas referências resta nessa área da praça Rui Barbosa, no Centro, apesar de ainda ter o Gabinete de Leitura e o Hotel Rosário. A igreja dos escravos que existiu ali até 1922 no então fim da rua, então demolida e levada para a praça da Bandeira na atual Igreja e Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, era uma parte dessa memória. Mas o pelourinho, o poste de castigos, era ainda mais antigo e por volta de 1700 visava os “negros da terra” – os povos indígenas, os nativos do Brasil que foram capturados antes dos afro-brasileiros.

É incrível como pouco restou de tudo isso, mesmo do quartel militar nenhuma referência. Nem as casinhas onde moraram artistas como Íssis Martins Roda.  Mas se você acredita em aura, parte dessa essência toda está ali – e possivelmente vestígios arqueológicos também, se cientistas pudessem trabalhar um pouco ali como já sugeriu o historiador Alexandre Oliveira.  Afinal, o memorialista Roberto Franco Bueno conta que sempre foram encontradas ossadas nas obras do Centro Histórico. Para ver fotos antigas do local na rede, visite o Sebo Jundiaí.

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Sabiam que já existem testes portáteis de DNA para mostrar que ninguém é exatamente o que parece ou pensa ser? Em breve estarão disponíveis.

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Diversos movimentos civis promoveram na manhã do dia 22 de abril, na avenida Paulista, um pequeno encontro de diálogo chamado “Dia Pela Democracia”.  Que seja uma boa semente.

José Arnaldo de Oliveira é jornalista e sociólogo

 

 
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