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Lucro sufoca pruridos

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21 de fevereiro de 2018
Por José Renato Nalini

Hoje ninguém mais tem dúvidas sobre os riscos do aquecimento global e sua causa majoritária: a atuação humana. Os eventos danosos previstos para um século depois do alerta, estão acontecendo agora e aqui. Não há lugar no mundo incólume à resposta da natureza, após infrutíferos gritos de socorro ignorados pela humanidade inclemente.

Vive-se um caos ambiental e os ouvidos continuam moucos. O Brasil, que sinalizara ao mundo o compromisso ético voltado à preservação de sua exuberante biodiversidade, retrocede de maneira atroz. Revoga o Código Florestal, inebria-se com estatísticas falaciosas, desmonta o sistema de defesa das reservas, reduz as áreas protegidas. Para culminar, concede benefícios fiscais para petrolíferas do mundo inteiro. Na contramão de quem deveria investir na energia solar e na eólica, ambas disponíveis para este triste continente.

Mas a inconsequência não está só aqui. É no mundo inteiro, com as hienas que se alegram com o subproduto daquilo que a natureza já perdeu. Para quem tiver interesse, não faria mal ler o livro “Caiu do céu: o promissor negócio do aquecimento global”, de McKenzie Funk, traduzido por Pedro Sette Câmara, edição Três Estrelas. O jornalista norte-americano detectou que o caos ambiental estimula o faro daqueles que estão em busca de lucro fácil e não têm compromisso com o futuro.

Em lugar de prestigiar o Acordo de Paris, de conscientizar quem rasga o compromisso assumido e ressuscita a poluente indústria carbonífera, empresários e governos focam naquilo que vão poder extrair da desgraça. Muito distante de lamentar o desaparecimento das espécies, o processo acelerado de redução de terra engolida pelo mar, há quem ofereça a todos esses fenômenos uma reação que o autor chama “tribal, primal, movida pelo lucro, de curto prazo. Cada um por si. Cada negócio por si. Cada país por si”.

Exemplo: mesmo com a condenação do petróleo, combustível fóssil que envenena a atmosfera e ceifa milhões de vidas ao estimular a intensificação do uso do veículo mais egoísta que já se fabricou – o automóvel – empresas petrolíferas querem obter mais petróleo nas águas do Ártico. Pois o recuo acentuado do gelo marinho, o derretimento das calotas polares, deixou livre um território, hoje oferecido à sanha do empresariado que nada tem a ver com as gerações do porvir.

A se extrair conclusões diante da postura de alguns Países, parece que o Canadá e a Rússia não veem com maus olhos a oportunidade de aumentar suas terras aráveis diante de invernos menos rigorosos. Atribui-se ao Presidente russo dizer: “Bem, pelo menos vamos economizar nos casacos de pele”.

Consta que empresas israelenses especializadas em dessalinização de água, agora se dedicam a produzir neve artificial nos Alpes, cujas geleiras desaparecem a olhos vistos, para frustração dos habituados a esquiar.

Até a aparentemente pacífica e discreta população inuíte, a gente esquimó nativa da Groenlândia, estaria muito entusiasmada com a chance de exigir sua autonomia diante do governo dinamarquês, bancada pelos royalties da exploração de petróleo e minérios em seu território liberado das neves eternas.

Assim como as grandes catástrofes não deixam de gerar renda para aqueles que fornecem caixões, cuidam de sepultamentos, utilizam maquinário para remover terra, liberar passagens, trabalhar na terra arrasada, também a triste consequência do descaso humano para com o Planeta excita quem só quer saber de dinheiro.

Eloquente o depoimento de um investidor desses cujos olhos brilham ante os cifrões que entrevê diante do quadro nefasto. Não tem qualquer resquício de remorso por se valer da oportunidade que estes tempos propiciaram a ele. “É como se eu tivesse comprado maconha de um cara que comprou de outro cara que comprou de outro cara que comprou de um cara na Guatemala que matou alguém por causa dela”. Foi essa a comparação. Ou seja: a cadeia causal se perdeu e ele apenas faz aquilo que o negócio ordena.

Conclusão: não é problema meu. Não fui eu quem criou o aquecimento global. Pode ser um argumento persuasivo. Mas é moral?

José Renato Nalini é secretário estadual de Educação e docente da Uninove
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