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Não se escolha naufrágio

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10 de março de 2018
Por José Renato Nalini

Você sabia que, em 1820, a renda per capita brasileira era superior à da Austrália, Nova Zelândia e Grécia? E que o indicador, considerado importante avaliação do bem-estar, não era na Escandinávia e Canadá, muito superior ao brasileiro na mesma época? O que aconteceu com o Brasil desde então?

Deixamos de acumular capital humano. Negligenciamos tanto as habilidades cognitivas como aquilo que hoje se denomina de “competência socioemocional”. Ou seja: não levamos a sério a única ferramenta capaz de nos libertar do naufrágio certo: a educação.

No livro "Roots of brazilian relative economic backwardness", do economista Alexandre Rands Barros, encontra-se uma percuciente análise da realidade brasileira. A disponibilidade de capital humano e físico – máquinas e equipamentos – responde por 90% das diferenças de renda per capita entre os países. Cotejados os dois fatores, o capital humano tem papel mais relevante.

A migração internacional de pessoas é mais lenta do que a migração de máquinas, equipamentos e tecnologia. Estes são alocados de acordo com a disponibilidade da força de trabalho mais qualificada. Por isso é que a escolaridade e a qualidade da educação dos trabalhadores são tão cruciais para o desenvolvimento de qualquer Nação.

O Brasil tem baixíssimo estoque de capital humano. Uma visão escravagista, patrimonialista e individualista impediu a adoção consistente de políticas propulsoras da acumulação de fatores pró-crescimento. A política arcaica e paroquial inibiu investimentos maciços em educação. O desenvolvimento brasileiro ainda é viável, mas se houver seriedade e enfrentamento daquilo que impulsione de maneira mais significativa a escolaridade e a qualidade da educação.

Há um nicho pensante no Brasil, que já ofereceu projetos para este ano emblemático. Uma “agenda setorial” consta do livro "Retomada do Crescimento - Diagnósticos e Propostas", organizado por Fábio Giambiagi e Mansueto Facundo de Almeida Júnior. Ela contempla exatamente a educação, que soluciona ou ao menos atenua todos os demais problemas brasileiros. Saúde, pobreza, segurança, infraestrutura, desigualdade, meio ambiente. Educação que é dever de todos.

Ninguém está excluído de libertar a população do véu de ignorância que acomete legiões, cada nicho imerso numa cegueira inconsciente ou deliberada. Olhar o outro com respeito e comiseração. Estender a mão para que o indigente saia da miséria, o desajustado consiga inclusão, o analfabeto – em sentido estrito ou funcional, o que é muito pior – consiga ler e compreender a realidade de seu universo.

O cenário otimista não deixa de considerar a imersão de milhões de brasileiros na era digital. Se quase todas as pessoas navegam nas redes sociais e se servem da tecnologia de informação e comunicação hoje disponível e a cada instante mais acessível, por que não se servir dessa ferramenta para esclarecer, para conscientizar, para desenvolver um sentido de responsabilidade que ficou escondido na onda fácil da profusão de direitos sem os respectivos deveres?

A infância tem desenvoltura que não se poderia imaginar há algumas décadas, para descobrir funcionalidades insuspeitas e para resolver problemas triviais, com os quais a sociedade convivia sem enxergá-los ou numa profunda inércia. Educação deve ser o compromisso permanente e o mais urgente, não só para o governo. Mas para a família – ou o que veio a substituí-la como núcleo afetivo sem o qual o ser humano não se desenvolve emocional e afetivamente – e para toda a sociedade.

Na era do fim do emprego, a qualificação formal é insuficiente para suprir o mercado das habilidades que o mundo reclama. Universidade, empresas, organizações, entidades e pensadores conscientes precisam investir em estruturas para identificar os potenciais exercentes daquelas atividades que são necessárias e que podem sequer ter um nome. Novas funções, novos negócios, novos afazeres exigem uma novíssima e contínua capacitação do enorme potencial de nossa mocidade. Fenômeno constatável por todos aqueles que vivenciam a experiência de oferecer instrumental tecnológico suficientemente sedutor para arejar a mentalidade nem sempre disponível na educação formal.

Uma janela de otimismo até que vai bem na era da incerteza e da incompreensão, em tempos tenebrosos que reclamam prudência e serenidade, além da invencível confiança na predestinação da espécie.

José Renato Nalini é secretário estadual de Educação e docente da Uninove
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